Versos à Dorvalina
Todo o jardim dos afetos
Que eu te dou continuamente
Vai cheio dos mais secretos
Perfumes, rola inocente.
Há nele rosas e lírios,
Muita flor desconhecida
Como é a flor dos martírios
E das lágrimas da vida.
Flor do vale e flor do prado,
Flor do campo e da colina,
Lembrando o teu rosto amado
Gentil criança divina.
Muita flor como esperança
Verde flor de primavera,
Só própria para criança
Que crê, que sonha e que espera.
Dá-me agora a flor doirada
Do teu sorriso d’infância,
Tão fresca e tão delicada,
Tão virginal de fragrância.
Dá-me a branca flor singela,
A flor de estrelas da boca...
Que como ave, em torno dela,
Esvoace minh’alma louca.
Que ela me queime e me abrase,
Que me encante e me proteja...
Que eu sinta esse gérmen, quase
Como o amor que em ti viceja.
Que essa flor do teu sorriso,
Como uma árvore, crescendo,
Seja um virgem paraíso
Sobre mim resplandecendo.
Que eu como átomo, perdido
Dentre as pétalas macias,
Esqueça o humano gemido
E as humanas ironias.
Que eu sinta no pólen d’ouro
Da flor ideal dos teus lábios
O poder desse Tesouro
Do amor que conquista sábios.
Que eu não tenha da matéria
Nenhum sentir nem vontade:
Esparso espírito na aérea,
Sideral imensidade.
Que eu me dilua no vento,
Nos espaços e nas águas
E seja no pensamento
O que no peito são mágoas.
Que eu me perca no incorpóreo
E no obsoleto das cousas,
Longe do riso marmóreo,
Gelado e triste das lousas.
Que eu seja um fluido, um perfume,
Um som, um brilho, uma essência.
Como essa que se resume
Na tua doce inocência.
Que talvez assim nas flores
Dispersos, soltos nos ares,
Não soubesse o que são dores
Nem visse o que são pesares.
Talvez que solto, disperso,
Errante, através dos mundos,
Eu não sentisse o meu verso
Chorando males profundos.
Talvez, crianças risonhas,
Que sem a humana impureza,
Pudesse, como quem sonha,
Cantar a tua beleza.
Só puros e só felizes
Podem cantar-te os carinhos;
Os vegetais e as raízes,
As aves dentro dos ninhos.
Todas as cousas serenas,
Colibris, pombos e rosas
Cantem-te a alma de açucenas
E madrugadas cheirosas.
Não quem visse entre muralhas
Onde a luta vã se encerra,
Nas mais estranhas batalhas
Por sete palmos de terra.