Versos à Dorvalina

By João da Cruz e Sousa

Todo o jardim dos afetos

Que eu te dou continuamente

Vai cheio dos mais secretos

Perfumes, rola inocente.

Há nele rosas e lírios,

Muita flor desconhecida

Como é a flor dos martírios

E das lágrimas da vida.

Flor do vale e flor do prado,

Flor do campo e da colina,

Lembrando o teu rosto amado

Gentil criança divina.

Muita flor como esperança

Verde flor de primavera,

Só própria para criança

Que crê, que sonha e que espera.

Dá-me agora a flor doirada

Do teu sorriso d’infância,

Tão fresca e tão delicada,

Tão virginal de fragrância.

Dá-me a branca flor singela,

A flor de estrelas da boca...

Que como ave, em torno dela,

Esvoace minh’alma louca.

Que ela me queime e me abrase,

Que me encante e me proteja...

Que eu sinta esse gérmen, quase

Como o amor que em ti viceja.

Que essa flor do teu sorriso,

Como uma árvore, crescendo,

Seja um virgem paraíso

Sobre mim resplandecendo.

Que eu como átomo, perdido

Dentre as pétalas macias,

Esqueça o humano gemido

E as humanas ironias.

Que eu sinta no pólen d’ouro

Da flor ideal dos teus lábios

O poder desse Tesouro

Do amor que conquista sábios.

Que eu não tenha da matéria

Nenhum sentir nem vontade:

Esparso espírito na aérea,

Sideral imensidade.

Que eu me dilua no vento,

Nos espaços e nas águas

E seja no pensamento

O que no peito são mágoas.

Que eu me perca no incorpóreo

E no obsoleto das cousas,

Longe do riso marmóreo,

Gelado e triste das lousas.

Que eu seja um fluido, um perfume,

Um som, um brilho, uma essência.

Como essa que se resume

Na tua doce inocência.

Que talvez assim nas flores

Dispersos, soltos nos ares,

Não soubesse o que são dores

Nem visse o que são pesares.

Talvez que solto, disperso,

Errante, através dos mundos,

Eu não sentisse o meu verso

Chorando males profundos.

Talvez, crianças risonhas,

Que sem a humana impureza,

Pudesse, como quem sonha,

Cantar a tua beleza.

Só puros e só felizes

Podem cantar-te os carinhos;

Os vegetais e as raízes,

As aves dentro dos ninhos.

Todas as cousas serenas,

Colibris, pombos e rosas

Cantem-te a alma de açucenas

E madrugadas cheirosas.

Não quem visse entre muralhas

Onde a luta vã se encerra,

Nas mais estranhas batalhas

Por sete palmos de terra.