VI

By Antônio Gonçalves Dias

— Filho meu, onde estás?

— Ao vosso lado;

Aqui vos trago provisões; tomai-as,

As vossas forças restaurai perdidas,

E a caminho, e já!

— Tardaste muito!

Não era nado o sol, quando partiste,

E frouxo o seu calor já sinto agora!

— Sim demorei-me a divagar sem rumo,

Perdi-me nestas matas intrincadas,

Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;

Convém partir, e já!

— Que novos males

Nos resta de sofrer? — que novas dores,

Que outro fado pior Tupã nos guarda?

— As setas da aflição já se esgotaram,

Nem para novo golpe espaço intacto

Em nossos corpos resta.

— Mas tu tremes!

— Talvez do afã da caça....

— Oh filho caro!

Um quê misterioso aqui me fala,

Aqui no coração; piedosa fraude

Será por certo, que não mentes nunca!

Não conheces temor, e agora temes?

Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,

E contra o seu querer não valem brios.

Partamos!... —

E com mão trêmula, incerta

Procura o filho, tateando as trevas

Da sua noite lúgubre e medonha.

Sentindo o acre odor das frescas tintas,

Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente...

Do filho os membros gélidos apalpa,

E a dolorosa maciez das plumas

Conhece estremecendo: — foge, volta,

Encontra sob as mãos o duro crânio,

Despido então do natural ornato!...

Recua aflito e pávido, cobrindo

Às mãos ambas os olhos fulminados,

Como que teme ainda o triste velho

De ver, não mais cruel, porém mais clara,

Daquele exício grande a imagem viva

Ante os olhos do corpo afigurada.

Não era que a verdade conhecesse

Inteira e tão cruel qual tinha sido;

Mas que funesto azar correra o filho,

Ele o via; ele o tinha ali presente;

E era de repetir-se a cada instante.

A dor passada, a previsão futura

E o presente tão negro, ali os tinha;

Ali no coração se concentrava,

Era num ponto só, mas era a morte!

— Tu prisioneiro, tu?

— Vós o dissestes.

— Dos índios?

— Sim.

— De que nação?

— Timbiras.

— E a muçurana funeral rompeste,

Dos falsos manitôs quebraste a maça...

— Nada fiz... aqui estou.

— Nada! —

Emudecem;

Curto instante depois prossegue o velho:

— Tu és valente, bem o sei; confessa,

Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!

— Nada fiz; mas souberam da existência

De um pobre velho, que em mim só vivia....

— E depois?...

— Eis-me aqui.

— Fica essa taba?

— Na direção do sol, quando transmonta.

— Longe?

— Não muito.

— Tens razão: partamos.

— E quereis ir?...

— Na direção do ocaso.