VI

By Gonçalves de Magalhães

Mal que à Natura se abre a inteligência,

E o primo pensamento a alma desperta,

Logo a idéia de Deus d’ela se apossa,

E a origem sua, e o seu destino aclara.

Súbito um fogo, mais que o sol brilhante

Que as gerações dos trópicos abrasa,

Mais veemente que os vulcões da terra,

N’alma se ateia, fogo inexaurível,

Casto fogo de amor, que interno a lavra,

E a Deus a sobe em espontâneo culto.

Não, o medo não foi quem sobre a terra

Os joelhos dobrou do homem primeiro,

E as mãos aos céus ergueu-lhe! Não, o medo

Não foi o criador da Divindade!

Foi o espanto, o amor, a consciência,

E a sublime efusão d’alma, e sentidos!

Viu o homem seu Deus por toda parte,

E sua alma exaltou-se de alegria.

Mas no amoroso êxtase não pára,

A interna adoração só lhe não basta,

Não se farta de amor, que amor sagrado

É invencível, poderosa força,

Que o espírito levanta ao infinito,

Como a atração os orbes equilibra

Na imensidade, a que escapar não podem.

Deve o espaço conter a sacra imagem

De sua adoração, devem os filhos,

Os netos devem nas futuras eras,

Vendo esta imagem, adorar o Eterno.

Mas, oh homem, que ousado intento é este?

Erguer um templo a Deus!... Que! porventura

Templo o espaço não é digno do Eterno?

As montanhas, o mar, os céus, os astros

Assaz não ornam do Senhor o templo?

Ou temes que em tão vasto santuário,

Nesse profundo abismo do infinito,

Vê-lo teus olhos míopes não possam?

Como possível é que espaço estreito

Abranja o Criador, que enche o Universo?

Mas pagas um tributo; — Ele to aceita.

Obreiro do Senhor, eia, trabalha,

Sem descanso trabalha dia, e noite;

Que teu Deus não repousa um só instante,

Para a ordem manter de tantos mundos.

Ah se ele um só minuto, repousasse,

Que seria de ti, deste Universo?

Alfim teu templo ergueste; reuniste

Tudo que há de mais belo sobre a terra,

E sec’los no trabalho se passaram!

Tudo aqui fala, tudo aqui revela

A força oculta que sustenta o homem,

E o destino imortal na Eternidade.

A rigidez do mármore, e a brancura

Duração, e pureza simbolizam;

A larga base, a altura, a esbelta forma,

A agulha, cuja ponta as nuvens rompe,

E parece querer fugir do espaço;

A áurea Virgem, que brilha em seu fastígio,

E este povo de estátuas, que a rodeiam,

Todas de branco mármore polido,

Que a glória do Senhor perene cantam;

Tudo, enfim tudo sem cessar proclama,

Que o pensamento que tão alto voa,

Que o pensamento que tais obras cria,

Que o pensamento que só Deus concebe,

Tem no tempo a existência, e não se curva

À lei que rege o habitador do espaço.

Tão simples como Deus, donde ele emana,

Não se aniquila como bruta mole;

Mas em louvor sem fim, a Deus unido,

Vive eternal em toda a Eternidade.

Assim é que o espírito celeste,

Que a massa humana anima, e nela impera,

De seu Deus concebendo a idéia pura,

Da terra se desprende se sublima,

E do sagrado amor nas ígneas asas

Sobe ao seio do Eterno, que o gerara.

Assim é que das lâmpadas do templo

Pirâmides de fogo se levantam,

E se perdem nos ares, qual se perde

O pensamento humano no infinito.

Santa Religião, sublime, augusta,

Tu a idéia de Deus esclareceste,

Idéia que, nas trevas que envolviam

A alma humana, brilhou como um relampo.

Divina inspiração, tu só podias

O espírito subir ao seu Princípio,

A despeito do mundo, e dos sentidos

Nem sempre verdadeiros. Tu revelas

Sacras verdades aos humanos úteis,

Que fora de teu grêmio embalde o homem

Orgulhoso procura; ao desgraçado

Oculta mão estendes caridosa:

Sempre consoladora, afável sempre,

Que mal há aí, que em ti cura não ache?

Ao som de tua voz misteriosa

Os errantes selvagens suspenderam

As mãos de sangue tintas, e prostrados

Sobre a terra, até ali inculta e brava,

A insólita voz tua repetiram

Em espontâneo arroubo. — A Natureza

Riu-se então, quando viu pela vez prima

Um homem abraçar o outro homem,

E em socorro comum viver jurarem.

Quis o homem tecer os teus louvores,

E a primeira palavra foi um hino,

O primeiro discurso Poesia.

E o homem, que até ali solto vagava,

Fraco, impotente entre animais ferozes,

Pelo místico cântico atraído,

A bronca penedia abandonando,

A viver começou em sociedade.

O gênio então nasceu! — Qual para o mundo

Entre os astros o sol mais claro brilha,

E aos outros astros sua luz envia,

Deus o gênio acendeu entre mil almas,

Para ser o fanal da Humanidade.

Santa Religião, amor divino,

Que benefícios sobre a terra espalhas!

Quanto é misterioso o Ser que inflamas!

De quanto ele é capaz! Vejo donzelas,

Roboradas por ti, vencer a morte!

Vejo feros tiranos destronados,

Vejo Nações erguidas, e cidades,

Seus louros a teus pés heróis deporem,

As Ciências, e as Artes florescentes,

Firme a Moral, as Leis, a Liberdade,

E a Humanidade inteira que te abraça,

E te proclama como Mãe de tudo.

Oh das Religiões a mais perfeita,

Oh única de Deus, e do homem digna!

Religião plantada no Calvário,

E co’o sangue do Cristo alimentada!

Religião de amor, de paz, de vida!

Tu, que civilizaste a Europa toda,

E primeira na América lançaste

O gérmen da grandeza, a que ela aspira;

Tu, que marcas de Deus a majestade,

Os direitos do homem sobre a terra,

E o seu porvir sublime além da morte;

Tu, que aclaras os povos, e co’os povos

De progresso em progresso ovante marchas,

Como a mãe que acompanha o caro filho,

Sem que a tua divina essência percas;

Teus inefáveis dons benigna espalha

Sobre os filhos dos homens, sempre... sempre.

Religião, inflama, e purifica

Meus pensamentos, e conforto presta

Ao infeliz peregrino que te invoca,

E que só em teu grêmio paz encontra.