VII Chinoca (poema da serra)

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Quando a ave da noite abriu as asas,

Anunciando a hora do repouso,

Eu, que andava em viagem de escoteiro,

Dei de rédea a buscar seguro pouso.

Dormir a sós no campo, em noites frias,

Sem barraca, sem poncho e sem peães,

Exposto aos desertores e aos tigres,

Sem ao menos uns três ou quatro cães;

Fora facilitar; e eu, que prezo

Com todo o interesse a minha vida,

Preferi galopar mais légua e meia,

A passar uma noite mal dormida.

E toquei-me, no mais, coxilha fora,

Não sentando nem mesmo nas ranhadas,

Sem medo de rodar entre a macega,

Onde as perdizes dormem sossegadas.

Atravessando o passo, cujas águas

Caíam d’uma íngreme pedreira,

Sombreadas por folhas verde-escuras

Da restinga entrançada em capoeira;

Pela estrada real segui no tranco,

Resolvido a pedir uma pousada

Na primeira fazenda ou mesmo sítio,

Que ficasse mais próximo da estrada.

Não tinha troteado quadra e meia,

Quando avistei à esquerda do caminho

Uma luz que aos bocados transformou-se

N’uma fogueira à frente d’um ranchinho.

Para aí me tocando, à meia rédea,

À porteira soltei o “Ó de casa!”

(Tirei de trás da orelha o meu cigarro

Que acendi d’essa feita n’uma brasa.)

Mal a porta se abriu, velho caboclo

“Chegue-se” murmurou em voz amiga;

E ouvi as vibrações d’uma viola,

Que acompanhava os sons de uma cantiga...

Era uma voz alegre, clara e fresca,

Como a voz das crianças inocentes,

Dando a uns versos antigos e sem arte

Uns trêmulos lascivos e dormentes.

Puxei o meu picaço pela rédea,

Levando-o para baixo da ramada;

Desencilhei-o aí, tirei-lhe o freio

E deixei-o na soga, em boa aguada.

O animal rinchou alegremente,

Sacudindo garboso as longas crinas,

Espojou-se na relva úmida e verde

E gachou-se a pastar pelas campinas.

Era uma noite fresca e constelada,

Como são sempre as noites estivais

Sob o azul — crivado de brilhantes,

Das nossas regiões meridionais.

Como lanternas mágicas acesas

No sombrio recinto de um salão,

Faiscavam inquietos vagalumes

No recanto trevoso d’um capão.

A mudez do noctívago silêncio

Era d’espaço a espaço entrecortada

Por latidos monótonos e tristes

De cães soltos em torno da morada.

Era bem tarde já; porém os galos,

Os lascivos sultões do galinheiro,

Nem se lembravam de rachar o bico,

Encolhidos nas varas do poleiro...

Entrei no rancho: “— Abanque-se, patrício,”

O caboclo me disse, e ao fogão

Indo logo buscar uma chaleira,

Encheu a cuia e deu-me um chimarrão.

Mateamos os dois, falando acerca

De cousas passageiras, meros nadas;

Nos potros que domara n’esse dia,

Nos estragos das muitas enxurradas...

Falou-me de um rapaz dos arredores,

Que por causa das últimas carreiras

Dera algumas facadas no Manduca,

O pobre do Manduca das Mangueiras!...

Contou-me que indo além parar rodeio,

Encontrara umas vascas pesteadas,

Mas que havia curá-las das bicheiras,

Com umas benzeduras muito usadas...

Que tinha em seu piquete dois cavalos,

— Um malacara e outro tobiano —

Com gafeiras, coerudos e com brocas,

Mais tristes do que um vento minuano.

Enfim, ele falou-me das misérias

Que perseguem os pobres criadores,

Que p’ra ter um churrasco sobre a cinza

Andam à chuva, ao sol e aos calores.

Tive pena do mísero caboclo;

Consolei-o com frases corriqueiras,

E perguntei quem era que à viola

Cantava ali modinhas brasileiras:

“É minha filha” respondeu-me, e indo

Para a porta que dava p’ra varanda:

“Chinoca disse, “escondes-te da gente?

Por que foste p’ra dentro? vem cá, anda.”

Pouco depois, o rosto mais mimoso

Que eu tenho visto em corpo de donzela,

Assomava, modesto, ingénuo e tímido,

Tornando-a em seu enleio inda mais bela!

Só co’a palheta mágica de Rubens,

Ou o pincel de Sânzio em mão de Apeles,

Eu pudera alinhar aquelas formas,

Pintar a maciez das suas peles.

Havia em seu olhar, quebrado e úmido,

Um mar de aspirações indefinidas...

E nas túmidas pomas, meio nuas,

Viam-se jambos e romãs partidas.

“Fugia por minha causa?” — Perguntei-lhe,

Fitando-a com respeito e com surpresa:

“Não, senhor; como um hospede chegasse,

Fui fazer o café, que está na mesa.”

Entramos na varanda: era pequena,

Mas alegre, bem clara e arejada;

Tinha duas janelas p’ra o terreiro

E uma rede n’um canto pendurada.

Sobre uma grande caixa de madeira,

Capaz de acomodar uma baleia,

A carona, o baixeiro e os pelegos

Formavam uma cama de mão cheia.

Depois, por travesseiro — um serigote,

Sob a xerga, enfronhada na badana...

Podia-se dormir a sono solto,

Mais a gosto que em lânguida otomana.

Sobre a mesa de pinho, sem toalha,

Três tigelas de louça, um prato raso,

A chaleira por cima d’um tijolo

E uns grãos de milho esparsos ao acaso...

A um canto, uma espingarda de dois canos,

Encostada à parede enfumaçada,

D’onde pendia um velho polvarinho

E um chumbeiro de pele retouvada...

Tais eram os adornos resumidos

D’aquela habitação singela e pobre,

Onde um lindo tesouro de virtudes

A sorte confiara a um’alma nobre.