VII Chinoca (poema da serra)
Quando a ave da noite abriu as asas,
Anunciando a hora do repouso,
Eu, que andava em viagem de escoteiro,
Dei de rédea a buscar seguro pouso.
Dormir a sós no campo, em noites frias,
Sem barraca, sem poncho e sem peães,
Exposto aos desertores e aos tigres,
Sem ao menos uns três ou quatro cães;
Fora facilitar; e eu, que prezo
Com todo o interesse a minha vida,
Preferi galopar mais légua e meia,
A passar uma noite mal dormida.
E toquei-me, no mais, coxilha fora,
Não sentando nem mesmo nas ranhadas,
Sem medo de rodar entre a macega,
Onde as perdizes dormem sossegadas.
Atravessando o passo, cujas águas
Caíam d’uma íngreme pedreira,
Sombreadas por folhas verde-escuras
Da restinga entrançada em capoeira;
Pela estrada real segui no tranco,
Resolvido a pedir uma pousada
Na primeira fazenda ou mesmo sítio,
Que ficasse mais próximo da estrada.
Não tinha troteado quadra e meia,
Quando avistei à esquerda do caminho
Uma luz que aos bocados transformou-se
N’uma fogueira à frente d’um ranchinho.
Para aí me tocando, à meia rédea,
À porteira soltei o “Ó de casa!”
(Tirei de trás da orelha o meu cigarro
Que acendi d’essa feita n’uma brasa.)
Mal a porta se abriu, velho caboclo
“Chegue-se” murmurou em voz amiga;
E ouvi as vibrações d’uma viola,
Que acompanhava os sons de uma cantiga...
Era uma voz alegre, clara e fresca,
Como a voz das crianças inocentes,
Dando a uns versos antigos e sem arte
Uns trêmulos lascivos e dormentes.
Puxei o meu picaço pela rédea,
Levando-o para baixo da ramada;
Desencilhei-o aí, tirei-lhe o freio
E deixei-o na soga, em boa aguada.
O animal rinchou alegremente,
Sacudindo garboso as longas crinas,
Espojou-se na relva úmida e verde
E gachou-se a pastar pelas campinas.
Era uma noite fresca e constelada,
Como são sempre as noites estivais
Sob o azul — crivado de brilhantes,
Das nossas regiões meridionais.
Como lanternas mágicas acesas
No sombrio recinto de um salão,
Faiscavam inquietos vagalumes
No recanto trevoso d’um capão.
A mudez do noctívago silêncio
Era d’espaço a espaço entrecortada
Por latidos monótonos e tristes
De cães soltos em torno da morada.
Era bem tarde já; porém os galos,
Os lascivos sultões do galinheiro,
Nem se lembravam de rachar o bico,
Encolhidos nas varas do poleiro...
Entrei no rancho: “— Abanque-se, patrício,”
O caboclo me disse, e ao fogão
Indo logo buscar uma chaleira,
Encheu a cuia e deu-me um chimarrão.
Mateamos os dois, falando acerca
De cousas passageiras, meros nadas;
Nos potros que domara n’esse dia,
Nos estragos das muitas enxurradas...
Falou-me de um rapaz dos arredores,
Que por causa das últimas carreiras
Dera algumas facadas no Manduca,
O pobre do Manduca das Mangueiras!...
Contou-me que indo além parar rodeio,
Encontrara umas vascas pesteadas,
Mas que havia curá-las das bicheiras,
Com umas benzeduras muito usadas...
Que tinha em seu piquete dois cavalos,
— Um malacara e outro tobiano —
Com gafeiras, coerudos e com brocas,
Mais tristes do que um vento minuano.
Enfim, ele falou-me das misérias
Que perseguem os pobres criadores,
Que p’ra ter um churrasco sobre a cinza
Andam à chuva, ao sol e aos calores.
Tive pena do mísero caboclo;
Consolei-o com frases corriqueiras,
E perguntei quem era que à viola
Cantava ali modinhas brasileiras:
“É minha filha” respondeu-me, e indo
Para a porta que dava p’ra varanda:
“Chinoca disse, “escondes-te da gente?
Por que foste p’ra dentro? vem cá, anda.”
Pouco depois, o rosto mais mimoso
Que eu tenho visto em corpo de donzela,
Assomava, modesto, ingénuo e tímido,
Tornando-a em seu enleio inda mais bela!
Só co’a palheta mágica de Rubens,
Ou o pincel de Sânzio em mão de Apeles,
Eu pudera alinhar aquelas formas,
Pintar a maciez das suas peles.
Havia em seu olhar, quebrado e úmido,
Um mar de aspirações indefinidas...
E nas túmidas pomas, meio nuas,
Viam-se jambos e romãs partidas.
“Fugia por minha causa?” — Perguntei-lhe,
Fitando-a com respeito e com surpresa:
“Não, senhor; como um hospede chegasse,
Fui fazer o café, que está na mesa.”
Entramos na varanda: era pequena,
Mas alegre, bem clara e arejada;
Tinha duas janelas p’ra o terreiro
E uma rede n’um canto pendurada.
Sobre uma grande caixa de madeira,
Capaz de acomodar uma baleia,
A carona, o baixeiro e os pelegos
Formavam uma cama de mão cheia.
Depois, por travesseiro — um serigote,
Sob a xerga, enfronhada na badana...
Podia-se dormir a sono solto,
Mais a gosto que em lânguida otomana.
Sobre a mesa de pinho, sem toalha,
Três tigelas de louça, um prato raso,
A chaleira por cima d’um tijolo
E uns grãos de milho esparsos ao acaso...
A um canto, uma espingarda de dois canos,
Encostada à parede enfumaçada,
D’onde pendia um velho polvarinho
E um chumbeiro de pele retouvada...
Tais eram os adornos resumidos
D’aquela habitação singela e pobre,
Onde um lindo tesouro de virtudes
A sorte confiara a um’alma nobre.