VII

By Gonçalves de Magalhães

Oh minha infância! Oh estação de flores!

De inocente ilusão alva saudosa!

Inda hoje te apresentas

Ante mim, como a imagem deleitosa

De um sonho que encantou-me a fantasia,

Ou como a aurora de um formoso dia.

Oh da infância atrativos lisonjeiros!

Mentirosos afetos!

Com que prazer amigos passageiros,

Inúmeros, na infância contraímos!

E quão fáceis após os repelimos,

De ligeiras palavras agastados.

Oh como é lindo

O tenro arbusto

Na primavera!

Como parece

Que se está rindo,

Quando o balança

Zéfiro brando;

Quando descansa

Sobre os seus ramos

O passarinho,

E modulando

Doces reclamos,

Vai o ar vizinho

Harmonizando!

Como é belo esmaltado de flores,

Exalando balsâmico aroma;

D’ele em torno voltejam amores,

E se escondem debaixo da coma.

Mas eis que o adusto

Vento do norte,

Soprando forte,

Já o abala;

O tenro arbusto

Neste tormento

Todo se dobra;

A verde gala

Amarelece;

E o duro vento,

Que em fúria cresce,

Vai arrancando

Folha por folha,

E sobre a terra

Secas lançando;

Té que despido

O deixa enfim.

O tempo assim

Nos vai roubando

Gratos prazeres

Da tenra idade,

Quantos amigos

A infância tem;

Até que vem

A puberdade

Com seus perigos;

E desta sorte

Chega a velhice,

Tronco gelado,

Desamparado;

Até que a morte,

Como um tufão,

Lança-o no chão!

Oh quão perto a velhice está da infância!

E quão perto da infância a morte adeja!