VIII

By Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Em torno a mim, nesta hora, estriges voam,

E o cemitério, em que eu entrei adrede,

Dá-me a impressão de um boulevard que fede,

Pela degradação dos que o povoam.

Quanta gente, roubada à humana coorte

Morre de fome, sobre a palha espessa,

Sem ter, como Ugolino, uma cabeça

Que possa mastigar na hora da morte;

E nua, após baixar ao caos budista,

Vem para aqui, nos braços de um canalha,

Porque o madapolão para a mortalha

Custa 1$200 ao lojista!

Que resta das cabeças que pensaram?!

E afundado nos sonhos mais nefastos,

Ao pegar num milhão de miolos gastos,

Todos os meus cabelos se arrepiaram.

Os evolucionismos benfeitores

Que por entre os cadáveres caminham,

Iguais a irmãs de caridade, vinham

Com a podridão dar de comer às flores!

Os defuntos então me ofereciam

Com as articulações das mãos inermes,

Num prato de hospital, cheio de vermes,

Todos os animais que apodreciam!

É possível que o estômago se afoite

(Muito embora contra isto a alma se irrite)

A cevar o antropófago apetite,

Comendo carne humana, à meia-noite!

Com uma ilimitadíssima tristeza,

Na impaciência do estômago vazio,

Eu devorava aquele bolo frio

Feito das podridões da Natureza!

E hirto, a camisa suada, a alma aos arrancos,

Vendo passar com as túnicas obscuras,

As escaveiradíssimas figuras

Das negras desonradas pelos brancos;

Pisando, como quem salta, entre fardos,

Nos corpos nus das moças hotentotes

Entregues, ao clarão de alguns archotes,

À sodomia indigna dos moscardos;

Eu maldizia o deus de mãos nefandas

Que, transgredindo a igualitária regra

Da Natureza, atira a raça negra

Ao contubérnio diário das quitandas!

Na evolução de minha dor grotesca,

Eu mendigava aos vermes insubmissos

Como indenização dos meus serviços,

O benefício de uma cova fresca.

Manhã. E eis-me a absorver a luz de fora,

Como o íncola do pólo ártico, às vezes,

Absorve, após a noite de seis meses,

Os raios caloríficos da aurora.

Nunca mais as goteiras cairiam

Como propositais setas malvadas,

No frio matador das madrugadas,

Por sobre o coração dos que sofriam!

Do meu cérebro à absconsa tábua rasa

Vinha a luz restituir o antigo crédito,

Proporcionando-me o prazer inédito,

De quem possui um sol dentro de casa.

Era a volúpia fúnebre que os ossos

Me inspiravam, trazendo-me ao sol claro,

À apreensão fisiológica do faro

O odor cadaveroso dos destroços!