VIO HUMA MANHÃA DE NATAL AS TRES IRMÃAS, A CUJAS VISTAS FEZ AS SEGUINTES DÉCIMAS.

By Gregório de Matos Guerra

Numa manhã tão serena

como entre tanto arrebol

pode caber tanto sol

em esfera tão pequena?

quem aos pasmos me condena

da dúvida há de tirar-me,

e há de mais declarar-me,

como pode ser ao certo

estar eu hoje tão perto

de três sóis, e não queimar-me.

Onde eu vi duas Auroras

com tão claros arrebóis,

que muito visse dois sóis

nos raios de três Senhoras:

mas se as matutinas horas,

que Deus para aurora fez,

tinham passado esta vez,

como pode ser, que ali

duas auroras eu vi,

e os sóis eram mais de três?

Se lhes chamo estrelas belas,

mais cresce a dificuldade,

pois perante a majestade

do sol não luzem estrelas:

seguem-se-me outras sequelas,

que dão mais força à questão,

com que eu nesta ocasião

peco à Luz, que me conquista,

que ou me desengane a vista,

ou me tire a confusão.

Ou eu sou cego em verdade

e a luz dos olhos perdi,

ou tem a luz, que ali vi,

mais questão, que a claridade:

cego de natividade

me pode o mundo chamar,

pois quando vim visitar

a Deus em seu nascimento,

me aconteceu num momento,

vendo a três luzes, cegar.