VISITA NOTURNA

By Gustavo de Paula Teixeira

À noite, na alcova escura,

Tua imagem me aparece:

Minh’alma, que não te esquece,

Dentro de um sonho, fulgura!

Vens, nas horas de saudade,

Consolar-me, se estou triste,

Com a voz mais doce que existe,

Toda meiguice e bondade.

Surges com o halo do Empíreo,

Envolta no véu de neve

Que ondula, sutil e leve,

Como o perfume de um lírio...

Alada e loira, sorrindo,

Pões a mão sobre o meu ombro:

Se eu te olho com mudo assombro

O olhar me volves mais lindo!

Como uma flor que se inclina.

Sentas-te ás bordas do leito

E pousas sobre o meu peito

O alvor da fronte divina!

Recobro aos poucos a calma:

E o meu olhar longamente

Se embebe no teu, que, ardente,

Enche de estrelas minh’alma.

Eu tenho a visão radiante

De uma noite de noivado!

Do teu cabelo ondulado

Sobe um perfume ebriante!

Uma frase de carinho

Com que me encantas e enlevas,

Abre clareiras nas trevas

Do círculo em que caminho.

Quando me falas, parece

Que um anjo, piedoso e loiro,

Embala, num berço d’oiro,

Meu coração, que adormece...

Vieste do céu com certeza!

Baixaste do azul profundo

Para mostrar neste mundo

Uma celeste beleza!

Por isso, à luz do teu riso,

Fico sorrindo e sonhando

Que és um dos anjos do bando

Que voa no Paraíso...