Vivandeiras IV – A glória
Sinto amor pela glória: a eterna companheira,
Dos gênios, dos heróis, artistas e poetas!...
É ela quem desfralda a marcial bandeira...
É ela quem dá força ao pulso dos atletas!
A glória é uma mulher morena e do olhos grandes,
Cheia de seduções e cheia do langores;
Faz que os amantes seus subam além dos Andes,
N’um voo inda maior que o voo dos condores!...
Seus lábios sensuais provocam mais desejos
Que as virgens de Murillo em lânguidas posturas...
Virgílio fez-lhe a corte... Homero deu-lhe beijos...
E Milton vai com ela às gerações futuras!
Foi amante de Tasso e de Petrarca e Dante:
Rival de Eleonora... e Laura... e Beatriz!...
Festejava Mozzar, quando ele ind’era infante...
Tem o berço na Grécia — e casas em Paris.
Traz na fronte um laurel de estrelas em miríades,
Tem o escopro, o pincel, o camartelo, a pena;
Com Sólon meditou... sorriu com Alcebíades...
Cantou com Mallibran, chorou com Magdalena....
Subiu com Jesus Cristo o monte do Calvário...
E desceu com Moisés do alto do Sinai!...
Abriu as catedrais antigas ao templário...
Sua mãe é a humanidade: e Deus — é o seu pai!
Nos castelos feudais das épocas lendárias,
Ao ver as castelãs em seus balcões em flores,
Inundava de amor o coração dos párias,
Dando filtros fatais à voz dos trovadores...
Em todas as nações e em todas as idades,
Ela foi sempre assim: esplêndida, divina!
Espalha os filhos seus por todas as cidades:
Em Panteões e hospitais... no teatro e na oficina!...
A Glória!... Essa mulher, por todos venerada,
Embora aperte ao seio o peito dos amantes,
É mais pura que o ar no azul d’uma alvorada...
Casta como o botão das flores odorantes.
É pura, é casta — e é mãe; assim também Maria,
A Mãe do Nazareno, o mártir divinal...
Se a crença de meus pais não era uma utopia:
Era pura, era casta: e mãe... e virginal!...
Na floresta cendrada, onde ela passa os dias,
Brincam Faunos gentis e Sátiros também;
E ela mergulha, a rir, nas águas claras, frias,
Onde a Náiade, a furto, espreita mais alguém...
Esse alguém — é o ideal do século das luzes,
O ideal do trabalho, o ideal da ciência;
Ele — que adormeceu aos gritos dos obuses...
Ele — que despertou à voz da consciência!
Pois bem! essa mulher, eterna e legendária,
Que abre as mãos ao herói e oferece o braço ao gênio,
Cedeu a Bevenuto a mão da estatuaria...
Ouviu Racine — e entrou, com Talma, no proscênio!...
O mais... vós o sabeis: seus filhos são gigantes,
De têmpera tão forte e dimensões tamanhas,
Como as aspirações dos moços estudantes...
Ou a sombra que cai do alto das montanhas!