Vivandeiras IX – Os socialistas

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Que ideia fazes tu dos magros operários,

Que tentam esmagar o novo Luiz Onze?...

São Cristos, carregando as cruzes aos Calvários...

Altivos Prometeus, em Cáucasos de bronze!...

Eles vêm de longe... exaustos e cansados,

Assim como os heróis que voltam do combate;

Mas, ah! os párias vis, os grandes desgraçados,

Não ouvem o clarim mavórcio do resgate!...

Eles de longe vêm... Famintos e sedentos,

Debalde irão bater às portas da oficina;

Tostados pelo sol, transidos pelos ventos.

Vão da miséria ao crime... e d’este à guilhotina!

E assim passando vão, sombrios, desvairados,

Os filhos, os irmãos, os pais e os maridos;

Deixando na mudez dos lares apagados

A prole, sem arrimo, exposta a vis bandidos.

Andaram dia e noite a procurar trabalho,

Nos palácios dos reis, nas quintas dos burgueses;

Podiam muito bem co’as cartas d’um baralho

Ter mais sério papel nos nossos entremezes...

Podiam muito bem, à beira d’uma estrada,

As bolsas arrancar aos filhos da opulência,

Que costumam passar, às três da madrugada,

De volta dos bordéis, quebrados de indolência....

Podiam muito bem, à moda dos bandidos,

Fazer uma emboscada, à noite, nas esquinas...

Ou seguir o exemplo usado entre os maridos

Que cedem a mulher por libras esterlinas!...

Sim, porque tu bem vês que a meretriz da noite

Oculta sob o xaile o adultério, o crime;

Nem falta por aí albergue onde se acoite

O criminoso audaz que às nossas leis se exime.

Podiam, porém não!... Aquelas grandes, almas,

— Salamandras da honra em fogo de miséria —

Preferiam colher de mártires as palmas,

A sentir o remorso a lhes queimar a artéria.

E esperaram, de pé, humildes, macilentos,

Com o chapéu na mão, a ferramenta ao lado,

Nas ruas, nos hotéis, nas lojas, nos conventos,

Que lhes dessem trabalho e dessem ordenado.

Esperaram à toa... Os velhos argentários

Passavam na fluidez das seges opulentas;

Sorria a messalina aos moços milionários...

Cantava a burguesia umas canções sebentas...

Esperar é sofrer, sofrer é um delírio,

O delírio é loucura, ao louco Deus perdoa...

Como é então que o rei, zombando do martírio

Da triste multidão, que espera em vão, à toa;

Condena o desvario esplêndido, sublime,

De quem — quis trabalhar — para matar a fome,

E, não vendo trabalho, então pensa no crime:

Procurando um alívio à mágoa que o consome?...

Fidalgos! Padres! Reis!... Tremei da Ideia Nova,

Que vos reduz a isto: — infâmia e cobardia. —

Socialistas, — avante!... Abri a grande cova

Que há de esconder os reis, o clero, a fidalguia!...