Vivandeiras IX – Os socialistas
Que ideia fazes tu dos magros operários,
Que tentam esmagar o novo Luiz Onze?...
São Cristos, carregando as cruzes aos Calvários...
Altivos Prometeus, em Cáucasos de bronze!...
Eles vêm de longe... exaustos e cansados,
Assim como os heróis que voltam do combate;
Mas, ah! os párias vis, os grandes desgraçados,
Não ouvem o clarim mavórcio do resgate!...
Eles de longe vêm... Famintos e sedentos,
Debalde irão bater às portas da oficina;
Tostados pelo sol, transidos pelos ventos.
Vão da miséria ao crime... e d’este à guilhotina!
E assim passando vão, sombrios, desvairados,
Os filhos, os irmãos, os pais e os maridos;
Deixando na mudez dos lares apagados
A prole, sem arrimo, exposta a vis bandidos.
Andaram dia e noite a procurar trabalho,
Nos palácios dos reis, nas quintas dos burgueses;
Podiam muito bem co’as cartas d’um baralho
Ter mais sério papel nos nossos entremezes...
Podiam muito bem, à beira d’uma estrada,
As bolsas arrancar aos filhos da opulência,
Que costumam passar, às três da madrugada,
De volta dos bordéis, quebrados de indolência....
Podiam muito bem, à moda dos bandidos,
Fazer uma emboscada, à noite, nas esquinas...
Ou seguir o exemplo usado entre os maridos
Que cedem a mulher por libras esterlinas!...
Sim, porque tu bem vês que a meretriz da noite
Oculta sob o xaile o adultério, o crime;
Nem falta por aí albergue onde se acoite
O criminoso audaz que às nossas leis se exime.
Podiam, porém não!... Aquelas grandes, almas,
— Salamandras da honra em fogo de miséria —
Preferiam colher de mártires as palmas,
A sentir o remorso a lhes queimar a artéria.
E esperaram, de pé, humildes, macilentos,
Com o chapéu na mão, a ferramenta ao lado,
Nas ruas, nos hotéis, nas lojas, nos conventos,
Que lhes dessem trabalho e dessem ordenado.
Esperaram à toa... Os velhos argentários
Passavam na fluidez das seges opulentas;
Sorria a messalina aos moços milionários...
Cantava a burguesia umas canções sebentas...
Esperar é sofrer, sofrer é um delírio,
O delírio é loucura, ao louco Deus perdoa...
Como é então que o rei, zombando do martírio
Da triste multidão, que espera em vão, à toa;
Condena o desvario esplêndido, sublime,
De quem — quis trabalhar — para matar a fome,
E, não vendo trabalho, então pensa no crime:
Procurando um alívio à mágoa que o consome?...
Fidalgos! Padres! Reis!... Tremei da Ideia Nova,
Que vos reduz a isto: — infâmia e cobardia. —
Socialistas, — avante!... Abri a grande cova
Que há de esconder os reis, o clero, a fidalguia!...