Vivandeiras VI – Osório
Eu vi o nosso herói nos transes derradeiros
Do derradeiro instante!
Forte como um leão, grande como um gigante:
Parecia passar nos campos das batalhas,
À frente dos guerreiros,
Por entre um temporal desfeito de metralhas!...
Não é mais belo o sol, como um Titão sangrento,
No o caso avermelhado!...
Eu vi (sonho ou visão? — febril deslumbramento!)
Nos olhos seus profundos,
Com tristezas de morte e audácias de soldado,
— Vivas radiações
De esplendorosos mundos
No sombrio estendal das amplas vastidões!
Há não sei quê de forte
Na maneira de olhar dos velhos legendários!
Parece até que a morte,
Varrida pelo espaço
Na eterna repulsão dos vultos planetários,
Já talvez na suprema angústia da impotência,
Aos céus levanta o braço,
Feito de musc’los d’aço,
Fundido na bigorna azul dos arrebóis...
Bradando: “Ó Providência!
“Ó Deus das tradições
“Da tragédia sagrada!
“Dá-me ímpetos de mar e fúrias de tufões
“Para eu poder lançar à solidão do nada,
“No poente da morte... o vivo sol dos sóis!...
E eu vi que o legendário
Era decerto assim: belo, sereno e forte,
Nas horas em que a morte
Deixava-o solitário
Na vazia extensão dos campos de batalha...
Quanta voz, encostado a uns restos de muralha,
Não cismava na pátria o lutador valente!
Ó Dante! as tuas visões passavam-lhe na mente,
Envoltas em troféus e envoltas em mortalha!...
Depois... quando soavam
Clangorosos clarins metálicos, vibrantes,
Ao rufo atroador de inúmeros tambores...
E as bandeiras então — como asas de condores —
Nos ares flutuavam!...
E longe, muito ao longe,
Extensas legiões,
Escuras como a cor do hábito de um monge,
Tomavam posições,
Enquanto que as espadas
Cintilavam ao sol, vivas, desembainhadas!
Como que se operava a transfiguração,
Dos cimos do Thabor!
Osório, aureolado em ondas de um clarão,
Era o gênio da guerra — assombro do valor!
No confuso vai-vem
Dos inquietos corcéis das bravas cav’larias,
Que mascavam o freio em cóleras sombrias,
Varados pelas balas
Que voavam d’além...
Abriam-se de chofre os pelotões em alas
Para passar alguém;
Então, n’esse momento,
Ao dorso de um corcel de crina solta ao vento,
N’um galope febril, fantástico, infernal,
Forte, como o exemplo eterno do Calvário,
Passava o general...
O general Osório, — o nosso legendário!...
Ia colher mais louros,
Se mais louros houvesse ainda por colher...
Bradava então a Morte: — Eu posso te suster
Com meus pulsos fatais!
Respondia o herói: — Eu vou para os vindouros!
E galopava mais!...
E galopava mais! e mais... e tanto, tanto,
Que os primeiros heróis perdiam-no de vista:
Viam somente, ao longe, atônitos de espanto,
Um vulto indefinido... o anjo da conquista!
Procuravam em vão seguir de Osório os rastros
Os bravos generais:
Assim, também na esfera esplêndida dos astros,
Estão longe do sol — planetas imortais!
Foi assim que o herói nos campos de batalha
Glorificou a vida — exposto sempre à morte.
Como é que vem a sorte
Envolver seus troféus nas dobras da mortalha?!...
Pátria! não vês que chora uma nação inteira
Aos pés de um homem só?
(O presente não sonha em mística cegueira
A escada de Jacob...)
É mister levantar um monumento a Osório,
— O maior general dos nossos generais —
Um monumento enorme, assim — como o zimbório,
Das amplas catedrais:
Bem o podes talhar ao molde do seu nome.
Que o tempo não consome.
— E se faltar material bastante
Para nas praças erigir-lhe estátuas,
Se essas vaidades transitórias, fátuas,
Perdem-se à sombra d’esse herói gigante;
Não vás grinaldas enastrar de flores,
Nem às estrelas mendigar fulgores...
— Temos na terra o que não há no céu:
Apanha as armas que a seus pés caíram,
E ajunta as balas que os canhões cuspiram
Lá na província onde esse herói nasceu!...
Curva-te, ó pátria! sobre o chão do Pampa,
Recolhe os ossos dos titães soldados,
E então de sabres e canhões e balas,
Lanças partidas, pavilhões rasgados,
Levanta o alto pedestal da estátua,
Que irá nas brumas se perder do espaço...
E assim aos astros erguerás seu crânio
E ao mundo inteiro estenderás seu braço.