Vivandeiras VI – Osório

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Eu vi o nosso herói nos transes derradeiros

Do derradeiro instante!

Forte como um leão, grande como um gigante:

Parecia passar nos campos das batalhas,

À frente dos guerreiros,

Por entre um temporal desfeito de metralhas!...

Não é mais belo o sol, como um Titão sangrento,

No o caso avermelhado!...

Eu vi (sonho ou visão? — febril deslumbramento!)

Nos olhos seus profundos,

Com tristezas de morte e audácias de soldado,

— Vivas radiações

De esplendorosos mundos

No sombrio estendal das amplas vastidões!

Há não sei quê de forte

Na maneira de olhar dos velhos legendários!

Parece até que a morte,

Varrida pelo espaço

Na eterna repulsão dos vultos planetários,

Já talvez na suprema angústia da impotência,

Aos céus levanta o braço,

Feito de musc’los d’aço,

Fundido na bigorna azul dos arrebóis...

Bradando: “Ó Providência!

“Ó Deus das tradições

“Da tragédia sagrada!

“Dá-me ímpetos de mar e fúrias de tufões

“Para eu poder lançar à solidão do nada,

“No poente da morte... o vivo sol dos sóis!...

E eu vi que o legendário

Era decerto assim: belo, sereno e forte,

Nas horas em que a morte

Deixava-o solitário

Na vazia extensão dos campos de batalha...

Quanta voz, encostado a uns restos de muralha,

Não cismava na pátria o lutador valente!

Ó Dante! as tuas visões passavam-lhe na mente,

Envoltas em troféus e envoltas em mortalha!...

Depois... quando soavam

Clangorosos clarins metálicos, vibrantes,

Ao rufo atroador de inúmeros tambores...

E as bandeiras então — como asas de condores —

Nos ares flutuavam!...

E longe, muito ao longe,

Extensas legiões,

Escuras como a cor do hábito de um monge,

Tomavam posições,

Enquanto que as espadas

Cintilavam ao sol, vivas, desembainhadas!

Como que se operava a transfiguração,

Dos cimos do Thabor!

Osório, aureolado em ondas de um clarão,

Era o gênio da guerra — assombro do valor!

No confuso vai-vem

Dos inquietos corcéis das bravas cav’larias,

Que mascavam o freio em cóleras sombrias,

Varados pelas balas

Que voavam d’além...

Abriam-se de chofre os pelotões em alas

Para passar alguém;

Então, n’esse momento,

Ao dorso de um corcel de crina solta ao vento,

N’um galope febril, fantástico, infernal,

Forte, como o exemplo eterno do Calvário,

Passava o general...

O general Osório, — o nosso legendário!...

Ia colher mais louros,

Se mais louros houvesse ainda por colher...

Bradava então a Morte: — Eu posso te suster

Com meus pulsos fatais!

Respondia o herói: — Eu vou para os vindouros!

E galopava mais!...

E galopava mais! e mais... e tanto, tanto,

Que os primeiros heróis perdiam-no de vista:

Viam somente, ao longe, atônitos de espanto,

Um vulto indefinido... o anjo da conquista!

Procuravam em vão seguir de Osório os rastros

Os bravos generais:

Assim, também na esfera esplêndida dos astros,

Estão longe do sol — planetas imortais!

Foi assim que o herói nos campos de batalha

Glorificou a vida — exposto sempre à morte.

Como é que vem a sorte

Envolver seus troféus nas dobras da mortalha?!...

Pátria! não vês que chora uma nação inteira

Aos pés de um homem só?

(O presente não sonha em mística cegueira

A escada de Jacob...)

É mister levantar um monumento a Osório,

— O maior general dos nossos generais —

Um monumento enorme, assim — como o zimbório,

Das amplas catedrais:

Bem o podes talhar ao molde do seu nome.

Que o tempo não consome.

— E se faltar material bastante

Para nas praças erigir-lhe estátuas,

Se essas vaidades transitórias, fátuas,

Perdem-se à sombra d’esse herói gigante;

Não vás grinaldas enastrar de flores,

Nem às estrelas mendigar fulgores...

— Temos na terra o que não há no céu:

Apanha as armas que a seus pés caíram,

E ajunta as balas que os canhões cuspiram

Lá na província onde esse herói nasceu!...

Curva-te, ó pátria! sobre o chão do Pampa,

Recolhe os ossos dos titães soldados,

E então de sabres e canhões e balas,

Lanças partidas, pavilhões rasgados,

Levanta o alto pedestal da estátua,

Que irá nas brumas se perder do espaço...

E assim aos astros erguerás seu crânio

E ao mundo inteiro estenderás seu braço.