Vivandeiras XIII – Canto de Nero (Numa página de Victor Hugo) I

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Vereis em breve arder a velha Roma inteira;

E eu, qual salamandra entre voraz fogueira,

Se for muito o calor que me abrasar a fronte,

Como na embriaguez das régias saturnais,

Do alto d’esta torre, escura como a noite,

Hei de entoar na lira uns cânticos fatais!...

Debalde a multidão procura onde se acoite.

No píncaro do monte,

Quem vale ao infeliz que luta braço a braço

Com o tigre — que atroa as solidões do espaço?...

Sete colinas vejo a meus pés estendidas,

Formando o grande circo, onde Roma, a devassa,

Tapa com mão de fogo a boca de mil vidas,

Amordaçando os vis com panos de fumaça...

Meus súditos assim hão de pagar bem caro

O ter nascido aqui nesta enfadonha terra,

Onde um tédio mortal por toda parte encaro...

E a saciedade atroz com seu olhar me aterra!...

Jove! eu sei, como tu, vibrar o raio ardente!

Vês?... a noite caiu... vai começar o jogo:

Já o incêndio fatal, na sombra pavorosa,

Como uma hidra informe — elástica serpente —

Com cem línguas de fogo

Lambe o espaço, enroscando a cauda luminosa!...

Olha... a trémula chama

Sobe aos muros veloz como um audaz ladrão;

Empalidece... cai... levanta-se!... s’inflama!...

Gira em torno de si, n’um doido turbilhão,

E n’um instante só

Torres e tudo mais ela reduz a pó!...