Vivandeiras XIII – Canto de Nero (Numa página de Victor Hugo) II
Pensas, Jove, que as chamas me apavoram?
Não! que os ciúmes no meu peito pulam...
Quem me dera esses beijos — que devoram!
Quem me dera os abraços — que estrangulam!...
Vejamos os sinistros resplendores:
Vê como correm tímidas as gentes...
Escuta esses clamores,
Uns sufocados, outros estridentes!...
Colunas e obeliscos vão caindo,
Com formidável som tombão, rolando,
Como trovões medonhos ribombando!
E, disfarçando o horror, a angústia, o luto,
Dão as chamas ao Tibre por tributo
Rios de fogo líquido rugindo!...
Tudo referve!... Pórfiros, granitos,
Mármores, bronzes!... Espetac’lo horrendo!
Cai o portão dos gonzos ignitos...
E de seus reforçados pedestais
As estátuas deslocam-se, tremendo,
As estátuas dos mortos... imortais!
Bravo incêndio!... Só tu me compreendes!
Por toda parte corres e te inflamas...
E ao sopro dos tufões rápido estendes
N’um mar de fogo um temporal de chamas!...
Quando o sangue manchar os vossos mantos,
Lavai com vinho as nódoas, meus amigos!
Só no sangue hoje em dia eu acho encantos...
Ou na hora suprema dos perigos!...
Mal haja quem do triste moribundo
Ouve compadecido as maldições!
Sufocaremos o clamor profundo
Aos sons de ditirambos e canções...
E tu, Roma! no fogo que te abrasa
Vê das minhas vinganças este exemplo!
E já que em tua adoração incerta
Roçaste no teu voo a ponta d’asa
Pelas frontes de Júpiter e Cristo...
Roma! lembra-te disto:
Consagra-me também glorioso templo.
Sim! que se agora vejo-te deserta,
Se envolta em cinzas hoje te contemplo,
Amanhã surgirás — inda mais bela!
Mas a cruz nos teus muros soberanos
Não hás de reerguer... Entre os humanos
Eu sei que a crença nela
Bruxuleia e se apaga, pouco a pouco,
Como os instantes lúcidos d’um louco!...
Os filhos de Jesus — foram fatais
À desgraçada Roma!
Escravo! não há nada como o aroma
Das flores do Oriente...
Traze-me, pois, depressa, incontinente,
Rosas orientais!...