Vivandeiras XV – A noite das visões
Eu estava à janela, a pensar, só e mudo,
Aberta a alma à terra, ao mar, ao céu... a tudo!
Na terra as maldições soavam n’um concerto,
O mar bramia em fúria, o céu era um deserto...
Abri os olhos d’alma a tudo: e vi — o nada.
Silente como o ar, frio como a geada.
As virações do mar, gemendo muito ao longe,
Faziam-me pensar nas orações de um monge...
Lembrei, ao ver cair a chuva sobre o mundo,
A lágrima que cai no rosto moribundo.
Os ventos, apagando as trémulas luzernas,
Pareciam leões rugindo nas cavernas.
Era uma noite negra, ameaçadora, horrenda,
Prolongada... sem fim!
Era uma noite irmã da bíblica legenda
Do sombrio Caim!...
A chuva, que caía dos espaços,
Fazia em estilhaços
Os vidros das janelas;
E ao rolar sobre a terra, enraivecida,
Pulava, recuava — espavorida...
Ela, com medo: a filha das procelas!...
Ante a fúria brutal dos rugidores ventos
Tremiam de terror os muros dos conventos.
Caíam pelo chão as folhas do arvoredo;
Os homens tinham raiva... as feras tinham medo!...
Os trovões, a rolar na escuridão do espaço,
Eram carros de bronze entre caminhos d’aço!...
Eu julgava escutar os berros d’um gigante,
De algum d’esses heróis descritos pelo Dante...
Não causa tanto horror a fauce do Vesúvio
Como uma noite assim — reflexo do Dilúvio!...
Era a franqueza d’água, a sátira do vento,
A hipérbole da treva em pleno firmamento!
Então, eu vi surgir do ventre d’um abismo
Um monstro, um Satanás, impávido, disformo:
Tinha o corpo felpudo, arrepiado, enorme...
Olhar de cão danado!...
Era ele o Ceticismo.
Volteavam-lhe em torno, emagrecidos, fracos,
Inquietos pigmeus,
Soltando uns guinchos d’aço, assim como os macacos
Mostrando os filhos seus
Ao caçador que os deixa e segue, admirado
De ver aquele instinto assim pronunciado.
E saltavam ao pé do monstro vil, ligeiros
Como a cobra que dança aos gritos do selvagem;
Assim, quando um cativo expira, os seus parceiros
Prestam-lhe a derradeira e fúnebre homenagem,
Dançando ante o esquife, alegres, prazenteiros,
Pensando que do morto a alma está no céu...
Ou ao lado dos seus — na terra onde nasceu.
E o monstro pavoroso,
Atlético, grosseiro,
Como o vulto orgulhoso
De um velho granadeiro;
Em tom de voz medonho e abafado,
Como o agonizar d’algum gigante,
Ou um vulcão há sec’los sufocado
Que rasgasse a cratera chamejante,
Firme o olhar, cabelo desgrenhado,
Úmido o pelo, a boca faiscante,
Estas palavras disse, sem tremer,
Fazendo a própria treva enegrecer:
“O céu é um vácuo enorme; a terra — a sepultura,
Onde apodrece, exposta aos vermes da vaidade,
A triste humanidade;
A virtude é um sonho, a honra uma mania;
A inteligência — um crime, a glória — uma utopia...
A vida — dia claro: a morte — noite escura!...
“A águia da razão, librando-se no seio
Das vastidões doar, aninha-se no espaço...
E, desatando o laço
Que a humana geração prendia à ignorância,
Deixa as religiões na mais pungente ânsia,
Fazendo ver que o céu — é puro devaneio.
“Alma — palavra vã, que o sábio não exprime;
Deus — orgulho sem fim, eterno despotismo...
Vida — sombrio abismo.
Morte — transformação de um ser em muitos seres;
Homem — filho da dor e órfão dos prazeres...
Matéria — o que há de eterno, o único, o sublime!...
O mais — tudo é mentira!... As grandes catedrais
Abrem ao bom e ao mau as portas igualmente.
O verdadeiro crente
É aquele que descrê, ou o que crê — no nada...
O mundo é um carnaval!... sorri d’esta farçada
A caveira que rola ao pé dos vegetais.
Depois... a Lua cheia, o pálido satélite,
A vaporosa Ofélia a flutuar no azul,
Tremendo apareceu na solidão etérea,
Ao levo respirar das virações do sul.
Vinha lânguida e triste... a face de uma tísica,
À embaciada luz do Sol crepuscular,
Não tem mais palidez, nem é mais branca a pétala
De um molhado jasmim rolando à flor do mar...
As nuvens cor de chumbo, os grandes mantos fúnebres
Que toldavam do céu o puro azul sem fim,
Reposteiros ideais do negro umbral dos túmulos,
Mostram constelações n’um fundo de cetim.
E o monstro da descrença, esse vampiro tétrico,
Anguloso, felpudo, informe, colossal,
Desfez-se com a treva: a lúgubre irmã gêmea
D’aquela alma da cor de um grande tremedal.
E então eu vi surgir...aparição fantástica!
Das bandas do oriente uma visão imensa:
Transparente, ideal, clara, rosada, lúcida,
Era a filha do Céu — o querubim da Crença!
Ó Crença! raio último
Dos olhos de Jesus,
Quando, sobre o Calvário,
Fechou as roxas pálpebras,
Abrindo os braços nus...
Dos braços de uma cruz!...
Tu és um riso cândido
De cândida criança;
Tens asas: és um pássaro,
Pássaro de esperança!
Adeja, sobe, eleva-te
Por esse espaço além...
Mas ah! os braços abre-me:
Cristo os abriu também.
Deus! como é bela, tímida,
Meiga, modesta e calma,
Ela — que vem de júbilos
Encher a nossa alma!...
Tinha o olhar sereno e doce das crianças,
Um riso aberto e claro — assim como as janelas
Que deitam para o mar... e um turbilhão de estrelas
Estava a engrinaldar-lhe as perfumosas tranças!...
Em delírios a luz caía dos espaços,
Ajoelhando em torno àquela visão branca;
E com sonora voz, sincera, alegre, franca,
Disse — as asas abrindo e levantando os braços:
“Eu sou um misto encantado
De aromas e sons e luz.
O Cristo, o Deus humanado,
Abriu-me os braços da cruz.
“Quando o último sorriso
Frisou os lábios de Adão,
Ao deixar do Paraíso
A celestial mansão;
“Aclarei da noite a treva,
Acendendo — astro de amor —
Na face pálida de Eva
Uma pérola de dor.
“Enxuguei, com uma pena
Das asas de Jeová,
O pranto da Madalena...
As lágrimas de Eloá!...
“Da luz do nascer do dia,
Das ardentias do mar,
Das brisas d’ave maria
E dos orvalhos do ar;
“Do trino dos passarinhos
E da espuma que flutua,
Do morno calor dos ninhos
E dos serenos da Lua;
“Das neblinas, das penugens,
Dos aromas, dos fulgores,
Dos arminhos e das nuvens,
Mais das pétalas das flores,
“Fiz o manto de rainha
Que pende dos ombros meus:
E — leve como andorinha —
Desço aos homens... subo a Deus!
Da igreja, a esposa suave
De Jesus, filha dileta;
Fiz o meu ninho de ave
No coração do poeta.
É em mim que ele se inspira:
Com a fronte no meu seio,
Ou fere as fibras da lira
Ou perde-se em brando enleio.
De meus olhares aos prismas
Eu o deixo, em mago eflúvio,
Boiando em lagos de cismas,
Como a arca no Diluvio...
Se a alma cristã se aninha
No calor dos seios meus:
Tão leve — como andorinha —
Desço aos homens... subo a Deus!”
A muita luz do dia, em turbilhões, em jorros,
Caindo d’amplidão, descendo pelos morros,
Tremendo sobre o mar,
Fez com que o anjo bom, o serafim dos crentes,
Batendo n’um instante as asas transparentes
Se perdesse pelo ar!...