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By Gonçalves de Magalhães

Longa foi a viagem;

Assaz lutastes; descansai agora.

Depois de haver vingado alpestre monte

Desde o albor da manhã, o peregrino

Afadigado desce,

E envolto em trevas vai pousar no vale.

Para vós assaz auroras madrugaram;

Por vós luas assaz alvas luziram;

Assaz de flores esmaltou-se a terra,

E de frutos as árvores copadas.

Sim, sim, assaz gozastes;

Mas uma voz vos chama, e vos diz: — basta.

Basta! — A hora soou; abre-se a campa,

E o sopro do seu antro,

Como o vapor da cânica caverna

Nas margens do sombrio Aniano lago,

Da vida vos apaga a tênue flama.

Para vós basta, oh Velhice!

Inda o sol tem resplendores,

Inda a noite tem estrelas,

Inda a lua alvos fulgores.

Inda os prados reverdecem

E de florzinhas se arreiam;

Inda, suspensos nos ramos,

Os passarinhos gorjeiam.

Inda o zéfiro sereno

Cheio de aroma, e doçura,

Fruindo o néctar das flores,

Na madrugada murmura.

Inda a cascata ruidosa

Entre seixos se despenha;

Inda o som da sua queda

Ressoa ao longe na brenha.

Inda os regatos deslizam,

As feras nos bosques rugem,

E lambendo a branca areia,

Nas praias as ondas mugem.

Tudo vida inda respira;

A terra não ‘stá mudada;

Vós só marchais, oh Velhice,

Triste, débil e curvada.

Vossos olhos se fecharam

Ao quadro da Natureza;

Em torno de vós só giram

A morte, o horror, e a tristeza.

Tudo em seu morno silêncio

Agora vos anuncia

Que a noite só vos pertence,

Que para vós vai-se o dia.

A noite eterna vos estende os braços,

Ah! preparai-vos para o sono eterno.

Basta! — E’ hora das preces.

Funéreo som no templo os bronzes vibram,

E o eco seu parece dizer — morte!

Sob o peso da fronte encanecida,

Já se curva e vacila o vosso porte,

Qual co’os flocos de neve a frágil hástea;

Entoastes o cântico da vida,

Entoai vosso cântico de morte;

Como o cândido cisne,

Que indo descer à escuridão do lago,

Cantando diz-lhe adeus na fatal hora,

Para nunca mais ver raiar a aurora.

Basta! — E’ hora das preces, oh Velhice!

Para o mundo acabastes.

Vossa alma resgatai do barro impuro;

O céu, que alma vos deu, pede vossa alma,

E a terra vosso corpo está pedindo;

Ah! dai à terra o que vos deu a terra!

Mas ah, não choreis!

E por que chorais?

Se vós não sabeis

Nem o que ganhais,

Nem o que perdeis.

Perdeis a terra, é certo; mas que importa,

Se celeste esperança vos conforta!

Viver é sonhar,

Sonhar é dormir;

Deveis acordar,

Para ao céu subir,

E no céu velar.

Acordai; sossegai o aflito peito,

Que ides deixar o amargurado leito.

O pranto enxugai,

Bani o temor;

O Nome entoai

Do Eterno Senhor;

E a Ele voai.

Vossa bênção lançai à Mocidade,

Que vai na luta entrar da Humanidade.