XII

By Gonçalves de Magalhães

O sol empalidece, o céu se enluta,

O raio despedaça o véu do Templo,

Soltos trovões rebramam;

De espanto, e horror a Natureza geme,

Chora Jerusalém, tremem seus muros,

E estupefato o povo

Entre o riso e o terror sem tino vaga.

Que sublime mistério o Eterno Padre

Revolve em sua mente?

Que grande sacrifício o céu consuma?

Quem é Esse que expira no Calvário

Entre dous criminosos,

Nos braços de uma Cruz, com rosto brando,

Como se o fel da morte não provasse?

O monte que suporta o peso ingente

Suspira a cada gota desse sangue,

Que o rega, e cai-lhe dos feridos membros

Da vítima sublime.

Quem é Esse, de quem o céu, e os astros

A morte estão carpindo?

Não, não é um mortal! — Razão altiva,

Em vão procuras ocultar seu Nome!

E’ o Filho de Deus, que sobre a terra

Espalhou a Moral pura e celeste,

Aos homens ensinando

A verdade, o amor, e o sofrimento.

Só o Filho de Deus na Cruz podia

Sofrer por nosso amor este tormento.

Homens degenerados

Sem pejo aos pés de deuses se prostravam

Tão infames como eles.

Corria humano sangue sobre as aras

Em sacrifício à vil hipocrisia

De oráculo fingido;

E as ímpias mãos de um impostor sagrado,

Nas palpitantes vísceras pousando,

Iam depois queimar o incenso impuro

Ante o altar do crime endeusado.

Tudo do engano as trevas encobriam;

Só déspotas raivosos

A seu grado reinavam;

E nas públicas praças, e nos circos

Só escravos em ócio pão pediam.

Como de vaga em vaga repelidos

Os restos do naufrágio,

Vão na areia encalhar, tal parecia

Que a Humanidade ao fim tocado havia.

No meio deste horror eis que aparece,

Como um íris de paz, do Eterno o Filho.

O erro confundido,

Procura em vão lutar. Embalde se erguem

Fogueiras aos Cristãos. Espavorido

Vê o sedento algoz imbeles virgens

Com os olhos no céu vencer a morte;

E das trêmulas mãos por terra caem

A sanguíneas bipenes;

Os falsos deuses dos altares saem;

E sobre o Capitólio a Cruz se eleva,

Como o sinal da redenção do mundo.

Vitória, os céus entoam,

Vitória à Humanidade!

O Cristo do Senhor desceu à terra,

E aos homens ensinou a sã verdade.