XIV Nostalgia

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Quem me dera trocar todos os nadas

Que cercam-me esta vida de ilusões,

Pelas horas com ela deslizadas

Na paz das solidões!...

Você nem sabe como eu penso agora

N’esse tempo feliz, que não vem mais...

Quem me dera poder andar lá fora

Nos meus pagos natais!

O rumor dos burgueses m’ensurdece,

Enoja-me das turbas o vai-vem;

Aqui... tudo definha e desfalece,

Tudo revive além!...

Além! esta palavra em si resume

Campinas, virações e céu azul!

E flores e lampíreos em cardume

Pelos vergéis do sul!

Além!... andar, cantando, o dia inteiro,

À sombra d’essas árvores titães:

Nas costas a espingarda e o chumbeiro,

À frente uns quatro cães.

Mais tarde, à branda luz d’ave-maria,

Voltar contente ao rancho de sapê:

Comer um prato de coalhada fria,

Depois — tomar café...

E os carinhos ingênuos da roceira,

Que não sabe iludir quando quer bem;

E tem n’um corpo esbelto de palmeira,

Um’alma — de cecém!

Dormir na rede as sestas langorosas,

Nas horas do mormaço abrasador;

Cantar ao violão trovas saudosas,

Cheias de muito amor!...

Nas noites em que a Lua pelo espaço

Vai desfiando pastas de algodão...

Passearmos, com ela pelo braço,

Na sombra do sertão.

Voltar bem tarde ao rancho, onde na frente

A chama da fogueira bruxuleia,

Sem medo de que a nossa confidente

Nos traia... a Lua cheia!

A Lua! quantas vezes não chegava

A sua discrição ao ponto de

Ocultar-se na nuvem que passava,

Quando... veja você!

Mas, deixemos a Lua e tudo aquilo

Que nos possa falar ao coração,

E tratemos de quem viver tranquilo

Não soube — no sertão:

Estou emagrecendo de maneira

Que ando em risco de ir para o Caju...

Já perguntou-me alguém: “— Múcio Teixeira,

Que é isso, que tens tu?...”

Por isso é que me diz constantemente

Meu amigo o doutor Lopes Trovão:

“Múcio, toma cuidado, andas doente,

Trata-te, quando não...”

Sabe lá como arrasto esta existência

Metido aqui na corte?... É como vê:

Chamam-me por doutor...dão-me excelência...

E nem sei mais o quê!...

Quem me dera trocar todos os nadas

Que cercam-me de fátuas ilusões,

Pelas horas com ela deslizadas

Na paz das solidões!