XIX

By Gonçalves de Magalhães

Deixemos este lúgubre aposento,

Estas estreitas, tortuosas ruas,

E subamos, Amigo, este fraguedo.

Íngreme, escabrosíssimo, impossível

Parece que o vinguemos;

Mas se à forte vontade a ação se aduna,

O que há na terra que resista ao homem?

Eia, Amigo, subamos.

Já as flores da noite alvinitentes,

Que o firmamento esmaltam,

A desmaiar começam, só co’a vista

Dos arrebóis d’aurora.

Da terra alvos vapores se levantam

Condensados, e no ar se desnovelam,

Montes bosquejam, mares, e cidades,

E nos campos se perdem do infinito,

Como agora se perde o pensamento

Na vastidão de idéias, em que vaga.

Subamos do rochedo até ao cume;

Lá, respirando um ar puro e suave,

Recebendo do sol os primos raios,

Louvores ao Altíssimo entoemos.

Subamos. — Que vastíssima paisagem!

Que cadeias de montes araçados,

E como torreões, grimpas, espectros,

Às nuvens se levantam!

Que tapetes de vinhas se desdobram,

E as várzeas, e as encostas alcatifam!

Que escuros tetos de mesquinhas vilas

Salpicadas aqui, e ali, quais combros

De terra, que formigas amontoam!

De tantas sensações extasiada,

Minha alma se sublima, e se converte

Num hino harmonioso,

Em louvor do Senhor da Natureza.

A lucífera estrela ali fulgura;

Lá se ergue o Sol num Oceano de ouro,

De rubins ondeado!

Tu, que iluminas mil milhões de povos,

Que outros tantos baixar tens visto ao nada,

E outros tantos subir ao grau daqueles;

Cem, e cem vezes eu te vi radiante

Atravessar contente e vagaroso

De minha Pátria os campos,

Os serros, e as cidades,

Como se, lei não sendo o movimento,

Eterno no Brasil brilhar quisesses.

Oh Sol, ind’ontem viste essa ditosa

Pátria, por quem suspiro aqui saudoso;

Pátria, por quem me afano; mas se embalde,

Longe dela acabar prefiro ao opróbrio

De vê-la, e ser-lhe inútil.

Não, oh Pátria, não estou de ti distante;

Comigo estás, é teu meu pensamento.

Um desejo violento, irresistível,

Como a enchente, que de alto se desaba,

Todo me ocupa, e o coração me abala;

Desejo de te ver no orbe cantada

Como a primeira das Nações da terra.

Descansemos, Amigo,

Descansemos um pouco, que é difícil

Por não trilhadas, perigosas sendas,

Sem fadiga vencer tal penedia.

Olha, vês tu aquele que pasmado

Debaixo nos contempla, e se confunde,

Envolto na poeira,

Co’as pequenas ovelhas que apascenta?

Quiçá de nós dizendo esteja agora:

Eis dos homens té onde o arrojo chega!

Por que a plana estrada desprezaram,

Onde sem risco todos nós marchamos,

Para perigos afrontar ousados?

Cairão, cairão; serão punidos...

Assim mesquinhos entes invejosos,

Tristes aves de agouro,

Que no charco comum patinham, grasnam,

Quando vêm remontar altivos gênios

Às sublimes esferas,

Esses, cuja missão é o progresso,

E das mãos arrancar da Natureza

Novas, úteis verdades,

Clamam, praguejam, mas no charco morrem;

Enquanto que de céu em céu voando,

De Nação em Nação, de povo em povo,

Da Humanidade os astros benfeitores,

Em torno a Deus, na Eternidade pairam

De própria luz radiantes.

Trabalhemos, Amigo, pela Pátria,

Só por amor da Pátria,

E entreguemos a Deus nosso destino.

Se à região dos astros não subirmos,

Pirilampos seremos nos desertos,

E aos nossos reunidos, luz daremos,

Que nas trevas talvez ao desgarrado

Viajor encaminhe.

Trabalhemos, Amigo, pela Pátria,

Só por amor da Pátria,

E entreguemos a Deus nosso destino.

Ah subamos ainda,

E cheguemos ao tope da montanha.

Esta pedra que cai, bate, e reflete,

E assim de curva em curva saltitante,

Vai rolando, e batendo, até que chega

Desfeita em mil pedaços,

É a imagem dos seres subalternos,

Que só grandes parecem pela altura,

Em que a cega ignorância os colocara;

Mas quando se despenham, desparecem,

Sem que se abale o mundo; nem arrastam

Satélites consigo,

A não ser a poeira

Que só os rodeava.

Assim muitos colossos se abismaram,

Colossos de vaidade:

Assim se enterrarão no eterno olvido

Muitos que a Pátria nossa inda hoje oprimem

Co’o peso da ignorância.

Nossa Pátria tão bela! — Nossa Pátria

Tão digna de um porvir grande e sublime!

Ei-la, como um cadáver de gigante,

Roída por milhões de vis insetos,

Que ela mesma alimenta!

Olha, Amigo, esta pálida saudade,

Que nesta penedia a custo vive.

Aqui não é que vegetar devia

Flor tão cara à minha alma.

Vês tu como ela pende a roxa fronte

Mal que a colho, e a coloco no meu peito?

Como ela o coração, sofrendo a mágoa

Que o nome dela explica,

Longe da Pátria, em que meus pais habitam,

De languidez se encolhe.

Irás comigo, oh flor, terna saudade,

Inda que murcha e seca; — irás comigo,

E acabaremos juntos.