XL

By Gonçalves de Magalhães

Nascido em virgem plaga Americana,

Onde da independência o livre sopro

Os homens vivifica;

Onde de azul cetim num céu sem nódoa

Lúcido gira o disco coruscante,

Que ao vate o gênio inflama;

Sem que do medo a destra me agrilhoe,

Porém venerabundo, a mente exalço

Ao herói de dous Mundos.

Tu, da glória no céu, não dado a muitos,

Rutilas fulgurante a par de Washington,

Co’a luz que a liberdade

De seu divino rosto escapar deixa,

Qual cometa fatal à tirania.

Oh grande Lafaiete!

Oh portentoso nome! honra da França!

Nome, que no orbe cresce, como em bosques,

Altos, frondosos cedros

Nos alcantis do Líbano se elevam,

E as tormentas, e os raios assoberbam

Contra eles fulminados.

De nós aprenderão os filhos nossos

A repetir teu nome, ainda no berço,

Com inocentes lábios;

Nossos filhos aos seus, estes aos netos

Irão passando intacta esta lembrança;

Como através dos evos

As colossais pirâmides, que emblemas

São da grandeza, e da existência eterna,

Ovantes têm passado.

Mas é grande ardimento! Ave sem canto,

Longe de seu vergel peregrinando,

Em remontado vôo

Querer modular sons, cantar teu nome!

Simpática afeição, mágico impulso

A ti porém me arrasta;

E de prazer o coração no peito

Expande-se a teu nome, qual se expande,

Em perfumado eflúvio,

O doce aroma do ananás gostoso.

E tu, qual prazer sentes, quando tomas

Esse infante em teus braços?

Esse infante gentil, de heróis progênie,

Filho de Zenowiez, hoje sem Pátria

Que um Déspota roubou-lha?

Qual te anima alegria esperançosa,

Quando de Kosciuszko vês o sangue

Girar em suas veias,

E as estranhas nutrir-lhe ainda tenras?

Oh! como é grato levantar nos braços

O filho de um guerreiro,

Que malfadado sim, mas virtuoso,

Sobranceiro se mostra à sorte adversa!

Ah, praza a Deus clemente

Que por ti embalado esse menino,

Por ti n’água lavado do batismo,

Raro exemplo seguindo

De seus nobres maiores, seja um dia

O que foi Kosciuszko, e o que tens sido.

Oh! se o porvir contemplo,

Quem sabe se ainda um dia!... Mas não podem

Humanas mãos romper o véu de trevas,

Com que a Providência

Esconde a mortais olhos o futuro.

Em sibilino arrojo não pretendo

Interpretar mistérios.

Cresça o jovem Emílio sempre ao lado

Do imortal Lafaiete, e aprenda, e saiba

Amar a liberdade.