XL

By Luís Nicolau Fagundes Varela

Calou-se o pio Mestre. A madrugada

Vinha nascendo lúcida e serena,

Bela como a ilusão de um belo tempo,

Como um sonho da infância entre as tristezas

De frios desenganos. O deserto,

Que a noite povoara de duendes.

Festivo despertava. Um oceano

De purpurina luz, enxameado

De milhares de nuvens multicores

Ganhava o firmamento. A mata virgem,

Enamorada do clarão celeste,

As primícias das flores orvalhadas

Parecia ofertar-lhe. A loira abelha,

O colibri mimoso, a borboleta.

Ligeira amiga das silvestres flores,

Cruzavam-se volúveis, adejando

Sobre as folhagens úmidas de orvalho.

Mais longe, à margem de pequeno lago,

A garça branca, o tímido flamingo,

A travessa narceja, se banhavam,

Brincando entre as lustrosas espadanas.