XLI

By Gonçalves de Magalhães

Nas veias o sangue já não me galopa,

Nem sacros furores nos lábios me fervem;

A lira canora do cisne Beócio

Deixei sobre a trípode.

Os risos fagueiros do Gênio da Pátria

Agora me inspiram idéias suaves.

Os vossos encantos, oh belas patrícias,

Eu canto dulcíssono.

Império das graças, oh sexo mimoso,

Vós sois o princípio da nossa existência;

Dos nossos prazeres orige’ inefável;

Sem vós que seríamos?

A lua que brilha num céu azulado,

E os raios argênteos no rio reflete,

É quadro bem lindo! porém vossas faces

Têm graças mais nítidas.

Os dias que alegres convosco passamos,

São horas bem curtas, são breves instantes;

E os breves instantes da ausência saudosa

São noites bem tétricas.

O canto das aves, que soa nos bosques,

É grato aos ouvidos do homem selvagem;

Porém vossas vozes têm mais melodia

Que as vozes dos pássaros.

A rosa tem cheiro que o ar embalsama,

A rosa tem cores que esmaltam os prados;

Porém para imagem da vossa beleza

A rosa é inválida.

As águas têm perlas, o céu tem estrelas,

Os campos têm flores, a terra tem ouro;

Mas vós venceis tudo; vós sois da Natura

A obra protótipa.

Por vós afinaram mil vates as liras;

Por vós mil guerreiros à glória voaram;

E até nações cultas por vós sacudiram

Seu jugo tirânico.

Oh Anjos da terra, da Pátria ornamento,

Donzelas, esposas, e mães carinhosas,

Na luta, que temos co’o vil despotismo,

Mostrai-vos magnânimas.

Os vossos encantos de prêmio só sirvam

A quem ama a Pátria, ao sábio, e ao justo.

Deixai que ociosos, e os nossos imigos

No lodo revolvam-se.