XLVIII

By Cláudio Manuel da Costa

Traidoras horas do enganoso gosto,

Que nunca imaginei, que o possuía,

Que ligeiras passastes! mal podia

Deixar aquele bem de ser suposto.

Já de parte o tormento estava posto;

E meu peito saudoso, que isto via,

As imagens da pena desmentia,

Pintando da ventura alegre o rosto.

Desanda então a fábrica elevada,

Que o plácido Morfeu tinha erigido,

Das espécies do sono fabricada:

Então é, que desperta o meu sentido,

Para observar na pompa destroçada,

Verdadeira a ruína, o bem fingido.