XVI

By Gonçalves de Magalhães

Que tens? De que te queixas, desgraçado?

É da Pátria a saudade que te aflige?

São os erros dos homens? São teus erros,

Que pesam sobre ti? És criminoso?

Aborreces a vida? A morte queres?

O qu’hei de eu responder? Não, oh meus lábios,

Não reveleis arcanos de minha alma,

Não crimineis os homens;

Queixas inúteis são; lábios, calai-vos.

A quem não sente o mal, que importa o alheio?

Não; não sou desgraçado. Estas profundas

Dores que me aguilhoam d’alma os seios.

São os sinais de uma lição do mundo.

Sinto a dor, mas sou grato à Providência,

Que destarte me instrui, como mãe terna,

Que só para ensinar o filho pune.

No mais íntimo d’alma o virtuoso

Acha quem o console na desgraça.

Desgraçado, és tu só, tu miserável,

Tu, que não do assassino o punhal temes,

Mas o punhal da própria consciência.

Lei é da Humanidade, e não do acaso;

Sofrer, sempre sofrer é seu destino.

A Natureza o homem bruto cria,

O mundo o aperfeiçoa

Com dores e trabalhos.

Como se brunem com o atrito os seixos

No revolver das ondas,

Ou como no crisol, à chama exposta,

Se purifica a prata,

Destarte, entregue à dor, doma-se o homem.

O templo da verdade o erro escolta,

Armado de punhais, e de flagícios;

E antes que a Humanidade entrever possa

Um claro lume do seu divo rosto,

Ah quantos são primeiro

Tristes vítimas do erro,

Servindo de degraus da luz ao ingresso!

Nossos olhos lancemos ao passado,

E co’o fanal da história descubramos

Quantos martírios nossos pais sofreram.

Tudo o que vemos nada é mais que a luta

Da verdade, e do erro.

A verdade, que herdada hoje gozamos,

Assaz regada foi com sangue humano;

Por nós dezoito séculos lutaram,

E nós pelo porvir lutamos hoje.

Não é fora do mundo,

Engolfado em prazeres que embriagam,

Em brando leito lânguido estendido,

Rodeado de escravas, que o incensam,

Como um rei do Oriente; nem na mesa

De esplêndido banquete, qual Lúculo,

Que se colhem lições da experiência.

Não; engana-se aquele, que Epicuro

Mal interpreta, e diz: Eia, gozemos;

A vida no prazer cifra-se toda.

É nos cárceres só, é nos perigos,

Quando ao exílio marcha o justo Aristides,

Quando Homero chorado pão esmola,

Quando no cárcer galileu medita,

Quando do trono avito um rei baqueia;

A experiência então a voz levanta:

Sólon, Sólon, Sólon, bem mo dizias!

Do passado a lembrança é morta idéia;

A experiência só, a experiência,

Dura, severa mestra,

Por caminhos de dores, entre espinhos,

Guia o incerto passo

Do mortal que viaja sobre a terra.

A dor é da verdade companheira;

Quem busca a experiência, a dor encontra.

Por que pois lamentar se a dor é útil?

Se ela é núncia de um mal, de que nos cumpre

Fugir, ou evitar assaltos novos?

O fogo que ao infante o dedo queima,

A refletir o ensina, enquanto os mimos

Da terna mãe mil vezes o corrompem.

Oh desgraçado aquele

Que jamais suportou uma só mágoa,

E que de gozo em gozo vê seus dias

Correr tranquilamente;

Como a flor nasce, e morre,

Mas como a flor também nada conhece;

Existe, mas não vive,

Que é, sem dor, o prazer uma quimera.

Para vermos a luz, que ânsias, que dores

Não sofrem nossas mães? Mas nesse instante

As dores maternais, nascendo, herdamos.

Glória, fama, saber dores nos custam;

Até o último expiro a dor nos segue;

E quem sabe se à dor põe termo a morte?

Como é feliz aquele que levanta

Seu espírito a Deus, e com fé pura,

No meio da tormenta,

Que o mundo sem cessar contra nós arma,

Do céu auxílio espera,

Enquanto sem conforto, entregue à raiva,

Blasfema o ímpio contra Deus, e os homens.

Feliz quem assoberba a iníqua sorte;

E, para o consolar, acha a virtude,

Que benéfica brilha,

Como em negra soidão plácido lume

Alma esperança gera, prometendo

Asilo ao peregrino afadigado.

Feliz, feliz mil vezes, quem tranquilo

Não ouve o apuridar da consciência,

E um só crime exprobrar-lhe!

E no leito da paz, ou na masmorra,

Não vê punhais em sonhos, nem fantasmas.

Mesmo quando os ruins dores lhe causem,

Como Guatemosino atado, e posto

Sobre estendidas, chamejantes brasas,

Com os olhos no céu, sereno exclama:

Num leito estou de rosas!

Entre afiadas rodas, açoutado

Com lâminas de ferro;

Na cadeia, no circo, e na fogueira,

Ou alvo da calúnia,

O justo não stá só, Deus é com ele.

Cadeias, circo, infâmia, fogo, e morte,

Tudo supera o justo.

Como as nuvens pejadas de vapores

Exalados da terra

Do coruscante sol a face cobrem,

E por um pouco a Natureza enlutam;

Mas depois da tremenda tempestade,

De mais belo cetim o céu se arreia,

E o sol raios dardeja mais brilhantes,

Assim depois da angústia, e da calúnia

A inocência triunfa acrisolada.

Ah! não nos lamentemos;

Que quanto mais se sofre mais se alcança.

A dor só para o iníquo é um tormento.

De Zeno as leis seguindo,

Como se a não sentíssemos, vivamos;

Deus existe, e nos vê; Deus só nos julga.