XVI

By Luís Nicolau Fagundes Varela

Era ao sol posto: no modesto asilo,

Prostrada, humilde, o pensamento entregue

Ao Deus de seus maiores, meditava

A mais pura, a mais bela entre as mulheres.

Mas, estremece de repente e cora,

Ergue os formosos olhos radiantes

De inefáveis delícias, e, surpresa

Vi um anjo do céu, todo esplendores,

Do pé a poucos passos; — enleada,

Cruza os braços, suspira, a fronte abaixa.

O etéreo mensageiro se aproxima

E fala deste modo: — Ave, Maria!

Virgem cheia du graça, é Deus contigo!

Bendita és tu, entre as mulheres todas,

Bendito o fruto de teu santo ventre.

E como a virgem pávida mirasse,

Continuou assim: — Sobre teu seio

Há descido do Altíssimo a virtude,

Terás um filho poderoso e forte,

E que — Filho de Deus — será chamado.

— Eis a serva de Deus, — faça-se nela

Sua santa vontade, — diz a virgem.

E o celeste enviado abrindo as asas

Volta, entre nuvens de brilhantes cores,

À sidérea mansão. — Salvo era o mundo:

Tinha se feito a luz que alumiava

A matéria fecunda, ia fazer-se

A viva luz que alumiar devera

As almas imortais em seu caminho;

Ia chegar ao mundo o Prometido,

Aquele que esperava que viesse,

Que trouxesse um consolo aos que chorassem,

Que desse ao pobre um lar, ao triste um gozo,

Ao romeiro um bordão, ao nauta um leme,

Ao cego a luz, ao moribundo a vida,

Aos povos a verdade! — Era já tempo.