XVII

By Luís Nicolau Fagundes Varela

Da clara estirpe de Davi o grande,

A glória de Israel, o rei-profeta,

O ungido do Senhor, o herói, o sábio,

O mais nobre cantor que há visto o mundo,

Era a eleita de Deus, dos céus princesa,

Dos homens esperança, — era Maria,

Filha de Ana e de Joaquim, esposa

Do operário José. A nódoa infausta

Do vício original não maculava

A esplêndida candura de seu rosto,

Norma sublime, divinal modelo

Da perfeição dos anjos. A inocência,

A bondade infinitas, radiavam

Iguais a duas fúlgidas estreitas,

Em seu laurel de excelsa virgindade.

Seus gestos graciosos, os seus passos

Mais leves e sutis, eram medidos

Por suave harmonia. Um — que — de etéreo,

De indefinido e vago, derramavam

Por toda a parte seus olhares. — Almas

Tinham as rosas dos sarçais selvagens,

Se as tocavam seus dedos: as palavras

Que murmuravam seus divinos lábios

Eram guardadas pelos anjos, — nunca

Tão grata havia sido a voz humana!

Tanta consolação jamais vertera!

Jamais tantas promessas traduzira!

— Bela e terrível! Ao mirar-lhe o rosto,

A espada flamejante, que guardava

Do Paraíso a porta, cairia

Das mãos de austero arcanjo, fulminando

A fronte mãe de um pensamento impuro!

Neta de um rei, mulher de um jornaleiro,

Pobre, singela, humilde, mas senhora

De toda a humanidade: desprezada

Dos escravos dos Césares nefandos,

Mas forte, gloriosa, triunfante

Ao lado de seu Filho e de quem sofre;

Eis a mulher que soergueu os homens

Do fundo abismo onde os lançara o erro!

Eis a predestinada, a quem o Eterno

Enviara seu lúcido ministro

Anunciando a encarnação do Verbo.