XVII
Da clara estirpe de Davi o grande,
A glória de Israel, o rei-profeta,
O ungido do Senhor, o herói, o sábio,
O mais nobre cantor que há visto o mundo,
Era a eleita de Deus, dos céus princesa,
Dos homens esperança, — era Maria,
Filha de Ana e de Joaquim, esposa
Do operário José. A nódoa infausta
Do vício original não maculava
A esplêndida candura de seu rosto,
Norma sublime, divinal modelo
Da perfeição dos anjos. A inocência,
A bondade infinitas, radiavam
Iguais a duas fúlgidas estreitas,
Em seu laurel de excelsa virgindade.
Seus gestos graciosos, os seus passos
Mais leves e sutis, eram medidos
Por suave harmonia. Um — que — de etéreo,
De indefinido e vago, derramavam
Por toda a parte seus olhares. — Almas
Tinham as rosas dos sarçais selvagens,
Se as tocavam seus dedos: as palavras
Que murmuravam seus divinos lábios
Eram guardadas pelos anjos, — nunca
Tão grata havia sido a voz humana!
Tanta consolação jamais vertera!
Jamais tantas promessas traduzira!
— Bela e terrível! Ao mirar-lhe o rosto,
A espada flamejante, que guardava
Do Paraíso a porta, cairia
Das mãos de austero arcanjo, fulminando
A fronte mãe de um pensamento impuro!
Neta de um rei, mulher de um jornaleiro,
Pobre, singela, humilde, mas senhora
De toda a humanidade: desprezada
Dos escravos dos Césares nefandos,
Mas forte, gloriosa, triunfante
Ao lado de seu Filho e de quem sofre;
Eis a mulher que soergueu os homens
Do fundo abismo onde os lançara o erro!
Eis a predestinada, a quem o Eterno
Enviara seu lúcido ministro
Anunciando a encarnação do Verbo.