XX

By Gonçalves de Magalhães

É Roma! É Roma! É a cidade eterna!

Lá sobre a catedral do cristão mundo

De Buonarotti o gênio se levanta,

Prodígio d’arte, maravilha humana

Consagrada a Deus vivo.

Entre suas ruínas, majestosa

Inda Roma se ostenta.

Inda seu nome impõe respeito ao mundo,

E entusiasmo gera.

Mas Roma entre ruínas se me antolha

Como essa arrependida penitente,

Que a vã pompa do mundo desprezando,

A cruz do Redentor humilde abraça.

Em vez de capacete, esparsa a coma;

Em vez de cetro, cruz; o márcio riso

Não mais lhe habita os lábios,

Nem lampejantes olhos mais incutem

Terror, vingança, e morte.

Religiosa dor hoje a sublima,

E a veste de candura, e de beleza.

Rainha das Nações, eu te saúdo!

Mãe ilustre de heróis do mundo espanto!

Eu te vejo, e minha alma inda duvida!

E não sentida comoção me abala.

Esta vermelha terra, árida e seca,

Qu’inda exala mortíferos vapores;

Este inculto deserto abandonado

Dos homens, e das feras,

Onde uma flor sequer não ri-se ao menos;

Esta desolação, esta tristeza,

Este horror sepulcral, que em torno gira

Da senhora do mundo,

Tudo alfim aqui fala, e os olhos mostra

As sangrentas tragédias, que juncaram

Estes campos outrora.

De tanto sangue humano que a ensopara,

De tanto ferro gasto que a cobrira,

Conserva ainda a cor a terra estéril!

Por que nuvens de corvos esvoaçam

Nestes ares pejados de vapores?

Por que arrancam gemidos dolorosos,

Que as carnes, e os cabelos arrepiam,

Como se eles um mal também carpissem?

Odor carnificino

Ainda exalarão de Roma os campos?

É que não acham mais sangue que bebam!

Cadáveres que os cevem!

Que Romano saído do sepulcro

Reconhecer-te, oh Roma, poderia

Que viajor, entrando em tuas portas,

Não dirá: Onde estou? onde está Roma?

Se uma voz respondesse: Eis aqui Roma.

Como não exclamar cheio de assombro:

Que maldição do céu caiu sobre ela!

Também têm as Nações suas idades.

Jovem já foste, oh Roma!

Já guerreiro vigor armou-te o braço;

Já tremeram de ti milhões de povos.

Fatigada de glória, e já curvada

Entre tuas ruínas,

Hoje tu tremes, como uma Rainha

Anosa sobre o trono,

Que em anos juvenis calcara ufana.

Hoje só em teu Deus arrimo encontras;

Só a Religião te ampara a fronte,

Que co’o peso dos séculos já pende.

Sem este novo Deus morta já foras.

Teus velhos deuses a paixões sujeitos,

Teus senhores, teus Neros, e teus filhos,

Degenerada raça

Dos Brutos, e Catões, raça maldita,

Nos mais nefandos crimes só nutrida,

Tudo alfim te arrastava ao horror, e à morte,

E te ia despenhar na sepultura.

Mas um Deus novo te salvou do abismo;

Novas virtudes deu-te, graças novas,

E tu por ele só inda hoje vives.

Da guerra o Gênio que nas pugnas vela,

E o pacífico Gênio que aos destinos

Dos Impérios preside,

Entorpecidos de fadigas tantas,

Entre a poeira das ruínas tuas,

Cobertos de lauréis, prostrados jazem.

Co’a espada o antigo mundo amedrontavas,

Co’a Ciência, e a Razão guiaste o novo;

Sim; a glória perdeste dos combates,

Mas alcançaste da Ciência a glória.

Ignora o mundo teu porvir augusto,

Que ao mundo oculta Deus seu pensamento;

Mas tu despertarás à voz de um Gênio,

Do sono em que te abismas.

Dorme, dorme, que o Tempo não perece;

Dorme, que um dia te erguerás mais bela;

Dorme, até que a trombeta do teu Anjo

No mausoléu ressoe de Adriano.

Os desígnios de Deus serão cumpridos;

Não, tu não morrerás, cidade eterna.