XXI

By Gonçalves de Magalhães

Vai-te, vai-te... Sepulta-te, não surjas

Do abismo do passado,

Ano, que para mim um século foste

De contínuos tormentos.

Vai-te, vai-te... Nem mais lembrança tua

A mente atribulada me enegreça;

Desaparece, passa como a nuvem,

Que o fúnebre palor da lua aumenta

Em sossegada noite;

Como um sonho, que agita a fantasia

De adormecido enfermo;

Ou como um pensamento malformado

No delírio da febre.

Mas como te olvidar, se a consciência

Ao grito da vontade se rebela?

E acintosa a memória inda conserva

Tua lembrança triste?

E sem cessar traidora fantasia

Malgrado meu me está representando

Mil desgostosas cenas?

Eterna ficará tua lembrança

À minha alma presente,

Para d’amarga vida despertar-me

Os passados reveses,

Como ao lado do altar pendente voto

O naufrágio recorda, e o salvamento.

Como depois de borrascosa noite,

Rutila alva serena,

Do seio do futuro inexaurível,

Novo ano, sai, assoma mais fagueiro,

E as lágrimas estanca,

Que pela dor mil vezes arrancadas,

Do coração aos olhos me subiam.

Faze que esta ilusão que a alma consola,

Esta esperança, último refúgio

Que na desgraça o malfadado encontra,

Núncio me seja de um melhor futuro.

Sê meu Íris de paz, e o meu santelmo.

Assaz desditas minhas juz me outorgam

De merecer-te ao menos um sorriso;

Assaz para um favor sofrido tenho.

Esta que ora desfruto paz serena,

Este descanso que piedosa destra

Concede a meu espírito agitado,

Este celeste sopro

De alma ventura que respiro agora,

Esta luz que me aclara,

Já deixa-me entrever porvir brilhante,

E o horizonte da Pátria me apresenta,

Da longe Pátria, tão por mim chorada.

Vem, ano-novo, vem; traze-me alegres

Notícias de meus pais, da Pátria minha.

Traze-me este consolo,

Este consolo ao menos, que me afague

Na distância em que vivo.

Outra ambição não tenho, outra... E o que pode

Minha alma cobiçar de mor valia?

Coração como o meu, ermo de inveja,

Exempto de vaidade, a pouco aspira;

Só de nobres desejos se alimenta.

E tornarei a ver-te, oh Pátria cara?

Teus montes saudarei? tuas florestas?

Teus rios? e o teu céu azul sem nódoa?

Ainda abraçarei os pais anosos?

Mas em que dia? Quando? Como tarda!

Vem, ano-novo; vem, minha esperança!

Por ti eu suspirava.

Qual um amante pelo bem amado.

Vem, oh núncio de paz; vem consolar-me.

Oxalá que não toques ao teu termo

Antes qu’eu volte ao paternal albergue.