XXI
— Afortunados sois, pobres de espírito,
Pois o reino dos céus é vossa herança;
Afortunados sois, brandos e mansos,
Que sem disputa possuís a terra;
Afortunado sois, vós que chorando
Atravessais a estrada da existência,
Porque tereis das mágoas lenitivo;
Afortunados vós que tendes fome
E sede de justiça, sereis fartos;
Afortunados sois, oh! compassivos,
Pois achareis também misericórdia;
Afortunados vós que neste mundo
Tendes os corações limpos e puros,
Pois verão o Senhor os vossos olhos;
Afortunados sois, seres pacíficos,
Filhos de Deus vos chamarão os homens;
Afortunados vós que sem queixumes,
Por amor da justiça e da verdade,
Sofreis perseguições, pois vos pertence
O reino do Senhor: afortunados
Vós que gemeis ao peso das injúrias,
Das calúnias cruéis por meu respeito,
Afortunados sois, pois largo prêmio,
Recebereis além na eterna pátria!
Voltando-se depois a seus discípulos:
— Vós sois o sol da terra e a luz dos povos.
Como um farol suspenso nas alturas
Aclare vossa luz a humanidade;
Vejam os homens vossas santas obras
E glorifiquem vosso Padre excelso!...
Quem, de mim se aproxima, e atento escuta
As palavras que brotam de meus lábios;
Quem, depois de as ouvir, seguro as guarda,
E as põe por obra no lidar da vida,
É igual ao varão prudente e sábio,
Que nas cavas de rígido penedo
Prende da casa os alicerces fortes:
Quando os tufões correrem pelo espaço,
Quando as caudais torrentes se arrojarem
Bravejando no dorso das montanhas,
Não terá que temer! — Triste daquele,
Triste daquele, que os ouvidos cerra
Às profundas verdades que professo!
Qual insensato, em terra levadiça,
Terá posto da casa os fundamentos:
Quando as torrentes rábidas passarem
Pelas chuvas do inverno intumescidas,
Vorazes lamberão a areia solta,
E o vaidoso edifício irá com ela! —
Depois destes santíssimos conceitos,
Cala-se o Salvador, abre caminho
Por entre a multidão que amiga o cerca,
E, seguido dos seus, desce do monte.
O sol do meio-dia abrasa os campos.