XXII

By Luís Nicolau Fagundes Varela

Pálido, em pleno inverno, raras vezes

Rasgando os mantos de alvacentas névoas,

Deixava o sol cair furtivo raio

Sobre os cimos do Hermon, ou sobre os lagos

Azuis da Galileia; frios ventos

Sopravam dos desertos, sacudindo

Os retorcidos galhos da videira,

E lançando por terra as folhas murchas

Dos densos olivedos; as campinas,

Onde sobre macia e verde relva

No doce estio, os cordeirinhos brancos

Saltitavam contentes, se cobriam

De camadas de neve; os passarinhos

Tinham buscado novo céu; as árvores

Nem gratos frutos, nem cheirosas flores

Ostentavam à vista tediosa

Dos viandantes trêmulos; — apenas

O grasnar dos abutres esfaimados,

O ruído das lívidas queixadas

Do chacal temeroso, remoendo

De mortos animais os ossos frescos;

A luz medonha dos fuzis do inverno

Correndo sobre o gelo; o silvo agudo

Das serpentes vorazes se agitando

Danadas sobre o chão, — interrompiam

A triste cena do infecundo quadro!