XXIII

By Gonçalves de Magalhães

Não te rias, oh fortuna!

Teu riso me é suspeitoso;

Contra a desgraça não clamo,

Não quero ser venturoso.

Vai-te, oh fortuna,

Não me atormentes;

Já não te creio,

Em tudo mentes.

Enquanto te procurava

Andei errados caminhos;

E das rosas que murcharam

Só me restam os espinhos.

Vai-te, oh fortuna,

Não me atormentes;

Já não te creio,

Em tudo mentes.

Por cousa tão transitória

É loucura amofinar-nos;

Os bens que hoje nos outorgas,

Amanhã podes tirar-nos.

Vai-te, a fortuna,

Não me atormentes;

Já não te creio,

Em tudo mentes.

Com bem pouco me contento,

Conformei-me co’a desgraça;

Já me tenho por ditoso,

Já rejeito a tua graça.

Vai-te, oh fortuna,

Não me atormentes;

Já não te creio,

Em tudo mentes.

Não sei o que é a ventura,

Nem sei se sou desgraçado.

Por bens que podem ser males,

Eu não troco o meu estado.

Vai-te, oh fortuna,

Não me atormentes;

Já não te creio,

Em tudo mentes.

Rápidos passam os dias,

E a cada passo que damos,

À morte, que é sempre certa,

Ligeiramente marchamos.

Vai-te, oh fortuna,

Não me atormentes;

Já não te creio,

Em tudo mentes.

É só ditoso na terra

Quem vive em paz com sua alma;

Quem das penas que aqui sofre,

Só do céu espera a palma.

Vai-te, oh fortuna,

Não me atormentes;

Já não te creio,

Em tudo mentes.