XXIV

By Cláudio Manuel da Costa

Sonha em torrentes d’água, o que abrasado

Na sede ardente está; sonha em riqueza

Aquele, que no horror de uma pobreza

Anda sempre infeliz, sempre vexado:

Assim na agitação de meu cuidado

De um contínuo delírio esta alma presa,

Quando é tudo rigor, tudo aspereza,

Me finjo no prazer de um doce estado.

Ao despertar a louca fantasia

Do enfermo, do mendigo, se descobre

Do torpe engano seu a imagem fria:

Que importa pois, que a idéia alívios cobre,

Se apesar desta ingrata aleivosia,

Quanto mais rico estou, estou mais pobre.