XXIV

By Gonçalves de Magalhães

Já que do coração rompeste os seios,

Onde terna saudade te gerara,

E quando mais minha alma nas da Pátria

Idéias se engolfava,

Da clausura do peito te escapaste,

Onde mais não cabias,

Fugitivo roçando inertes lábios,

Triste suspiro meu!... Já que teu eco

O silêncio quebrou misterioso

Do sepulcral horror deste recinto;

Sai, oh suspiro! sai... Não mais ressoes,

Inútil não te percas,

Nestas longas abóbadas quebradas,

Murmurando tu só de estância em estância,

Como um lúgubre som de ave noturna,

A quem prazem as trevas, e os destroços.

Teu doloroso som repercutido

Na oposta parte, tal pavor inspira,

Que um gemido parece das entranhas

Desta imensa ruína;

Eu mesmo que exalei-te, eu mesmo tremo,

E mortos tremeriam se te ouvissem;

Que farão os viventes!

Hirtos na fronte tenho inda os cabelos,

Frio, trêmulo o corpo,

Como um tronco de gelo ao vento exposto;

E o triste coração onde habitaste,

Recobrando de novo o movimento,

Com desusada força ora palpita,

E monótono soa,

Como soa o martelo sobre a incude.

Temem os olhos de se abrir às trevas,

E de ver coroado o anfiteatro

De alvas sombras de mortos, e de espectros,

Que para mais terror me pinta a mente.

Voa, suspiro meu, voa, não tardes;

Núncio vai ser do estado em que me deixas.

O caminho te indico; aos ares sobe;

Deixa de Roma os solitários campos,

Esta terra de sangue, e de cadáveres,

E às praias chega da querida Pátria,

Tão longes praias! — Quem me dera eu vê-las!

Mas no longo trajeto

Vai por mim os lugares visitando,

Por onde eu já passei triste e saudoso.

Oh! quão gratas me são reminiscências!

Delas compõe-se a vida,

Os prazeres são elas da velhice.

Do afadigado albor de um curto dia

Eis tudo o que nos fica!

Toma a Flamínia estrada;

Passa o lúrido Tibre, outrora rubro,

Quando o campo cedeu a Constantino

O bárbaro Maxêncio;

Verás Assis no cimo da colina

As cinzas adorar do santo filho.

Do Trasimeno às margens

A poeira verás de ossos romanos,

E um sussurro ouvirás, que diz: Aníbal!

Chega aos campos que o Arno fertiliza;

Entra em Florença, e em Santa Cruz visita

De Dante a sepultura.

Sentado está com merencório gesto;

Dir-se-á qu’inda do Inferno hórridas cenas

Se lhe antolham; e o mísero Ugolino

Mirrado entre cadáveres corruptos

Dos inocentes filhos, miserandos,

Como esfaimado tigre ossos roendo.

Pousa na destra o rosto, e co’a sinistra

Sustenta o imortal livro;

Chora de um lado a Poesia, e do outro

Itália veneranda está dizendo:

— ONORATE L’ALTISSIMO POETA.

Buonarotti, Alfieri, Machiavelli,

Verás aí também; tudo saúda.

Nem a Toscana deixes sem que vejas

Essa Pisa, onde as Artes renasceram.

Contempla de Bosqueto a maravilha,

O campo santo, a torre que pendente

Ameaça cair como um gigante.

Vai ouvir o sussurro do teu vôo

Nesse museu de mortos de Bolonha.

Ligeiro passa por Modena, e Parma;

Passa de Lódi a celebrada ponte,

Essa que o peso suportou ingente

Do Gênio das vitórias.

Passa o Apenino, e o Pó, e a Milão chega;

E em sua Catedral misteriosa,

Que prostrado me viu venerabundo,

Ao som do órgão sagrado, que reboa

Nas góticas abóbadas, respira

Religioso acento.

Mensageiro de dor, ah! não visites

Outros lugares, que o prazer inspirem.

Cansa o prazer ao homem quando é longo,

Mas tu, melancolia, jamais cansas

Aquém d’alma os arroubos saboreia.

Pela margem do lago, que tranquilo,

Azul-celeste e puro,

A vida da inocência simboliza,

Os Alpes busca, por heróis trilhado;

Os Alpes, como braços da Natura,

Que erguidos para o céu a Deus adoram.

Sobe o Simplão; penetra as galerias;

Se o nome do Brasil na pedra achares,

Minha mão o gravou, beija esse nome.

Noutra pedra verás meu nome escrito,

Se os gelos o não cobrem;

Sentado aí subi meu pensamento

Té ao trono de Deus, e pela Pátria

Dirigi-lhe meus votos.

Desce, verás de Brigg argênteos cumes,

Que ígneos raios refletem, simulando

Claros elmos de exército em parada.

Continua teu vôo; Sion passa,

Chega à bela Genebra, que se espelha

No lago cor do céu, e no seu Ródano,

Que o remanso do lago veloz deixa,

Para ir levar fertilidade aos campos,

Como, mal que desperta, ao leito foge,

E asinha o lavrador busca o trabalho.

Da infância de Rousseau deixando o berço,

Pobres vilas da França irás passando,

Ricas cidades vendo.

A Poligny chegando, a rocha vinga,

E na gótica estância, que talhada

Foi aí pela mão da Natureza,

Brasil, lerás nas rústicas pilastras.

Numa aba da montanha, junto à estrada,

Onde oculto desliza manso arroio,

Acharás uma imagem veneranda

Da Rainha dos céus, três vezes pura,

Dos cristãos caminhantes protetora.

Inda a seus pés verás murchas saudades,

Por minhas mãos colhidas na montanha.

De cidade em cidade irás vagando;

Entra em Paris, Rainha das cidades.

Mas ah! triste suspiro,

Se esses ares alegres te abrandarem,

Se o seu bulício perturbar teu vôo,

Dos mortos no jardim vai açoutar-te,

E entre jazigos tua dor recobra.

Como me apraz dos mortos o remanso!

Como dos mirtos sepulcrais o aroma

Faz o prazer libar da Eternidade!

Oh grata habitação! Oh paz suave!

Quando às minhas fadigas porei termo?

Oh meu suspiro, se acabar pudesses

Entre outros mil suspiros confundido

Nessa triste mansão! — Mas não, tens inda

De dar tua mensagem.

Passa a sombria pátria de Corneille

Onde se ergue o honroso monumento

Da magnânima Virgem

Pelo céu inspirada,

Que a fereza dos homens queimou viva.

Pelas margens do Sena aos mares voa;

Atravessa o Oceano, tão profundo

Como a dor de minha alma.

Passa o Oceano, imagem do infinito.

Entrarás num imenso ancoradouro,

De altíssimas montanhas torneado,

Onde repousa perenal verdura,

Que as espáduas dos montes engrinalda.

Oh sem-par maravilha!

Resupino, grandíssimo gigante

Ao longe assoma, e do Janeiro a barra

Ao viajor cansado patenteia?

Igual outro não há; errar não podes.

Aí é que te eu mando;

Essa é a Pátria minha, a Pátria amada,

Que a vida deu a quem me deu a vida!

Aí respira ainda a mãe anosa,

O encanecido pai, e irmãos queridos!

Verás se para amá-la razão tenho!

Mas não me capta amor grandeza sua.

Pobre fosse ela, pequenina aldeia,

Por ela meu amor igual seria;

Que este nome de Pátria é tão suave

Como o nome de mãe, de pai, de amigo;

E a mãe, e o pai, e o amigo inda que pobres

A um nobre coração gratos são sempre.

Venturoso suspiro,

Antes que em doce riso te convertas,

Nesse mágico céu da Pátria minha,

À paternal mansão ligeiro adeja

Como o meu pensamento;

Beija dos caros pais as mãos rugosas,

E soluçando diz-lhes,

Que o filho humilde a Deus rogando fica

Por eles, pela Pátria;

Sobre os restos de Roma, pensativo,

Um suspiro exalou, que à Pátria envia.