XXIV

By Luís Nicolau Fagundes Varela

As multidões hebreias caminhavam,

O triste véu da noite inda mais triste

Tornava as soledades; pavorosa

A viagem seria, se a esperança

De próximo descanso e abrigo próximo

Não alentasse os ânimos e as forças.

Alguns passos ainda, e além dos campos

Frios, desabrigados, a cidade

Querida de Davi, a hospitaleira

E singela Belém, por entre as sombras,

Ia mostrar-se com seus gratos fogos,

Consoladora como um porto amigo,

Que do meio do pérfido oceano

Lobriga esmorecido, pobre nauta.

Tinha cessado a vozeria e os cantos;

De quando em quando, apenas, um suspiro,

Um grito de mulher ou de criança,

Cujos mofinos pés, intumescidos

Do muito caminhar, ou lacerados

Dos espinhos e pedras do deserto,

A neve entorpecia, ou brado forte

De impaciente, ríspido carreiro

Os vagarosos brutos incitando,

Erguiam-se dos ranchos abatidos

Daquele povo ilustre e desgraçado.

Depois... fundo silêncio. — Oh! quantas vezes

Nesse jornadear penoso e duro,

Se lembrariam de Israel os filhos

Da longa escravidão de seus maiores?

Das estiadas do Egito e Babilônia?

E das promessas de seu Deus?... Quem sabe?