XXIV
As multidões hebreias caminhavam,
O triste véu da noite inda mais triste
Tornava as soledades; pavorosa
A viagem seria, se a esperança
De próximo descanso e abrigo próximo
Não alentasse os ânimos e as forças.
Alguns passos ainda, e além dos campos
Frios, desabrigados, a cidade
Querida de Davi, a hospitaleira
E singela Belém, por entre as sombras,
Ia mostrar-se com seus gratos fogos,
Consoladora como um porto amigo,
Que do meio do pérfido oceano
Lobriga esmorecido, pobre nauta.
Tinha cessado a vozeria e os cantos;
De quando em quando, apenas, um suspiro,
Um grito de mulher ou de criança,
Cujos mofinos pés, intumescidos
Do muito caminhar, ou lacerados
Dos espinhos e pedras do deserto,
A neve entorpecia, ou brado forte
De impaciente, ríspido carreiro
Os vagarosos brutos incitando,
Erguiam-se dos ranchos abatidos
Daquele povo ilustre e desgraçado.
Depois... fundo silêncio. — Oh! quantas vezes
Nesse jornadear penoso e duro,
Se lembrariam de Israel os filhos
Da longa escravidão de seus maiores?
Das estiadas do Egito e Babilônia?
E das promessas de seu Deus?... Quem sabe?