XXIX

By Gonçalves de Magalhães

Que vim eu aqui ver? — Uma masmorra

Úmida, estreita, onde respiro apenas!

Se a fronte elevo, o negro teto roço;

Se estendo os braços, a largura abranjo;

Dous passos bastam a medir seu fundo.

Que vim eu aqui ver? — Nomes escritos

De um lado e de outro de centenas de homens,

Que como eu curiosos peregrinos

Vieram visitar este recinto.

Vós, meus olhos, nada vedes;

Mas minha alma no passado

Um vate vê encerrado

Nesta lúgubre prisão.

Aqui chorou longos dias,

Longas noites, longos anos,

Quem por olhos soberanos

Enlouqueceu de paixão.

Tasso aqui como um escravo

Amargurou a existência;

De um senhor a inclemência

A morte aqui lhe quis dar.

Triste ele a ausência carpia

De sua cara princesa.

Seu amor, sua beleza

Causaram só seu penar.

Livre, qual Deus o criara,

Entre ramos adejando,

Melodias exalando,

Passa a vida o rouxinol.

Saúda o sol quando nasce,

Redobra o canto co’o dia,

Enche os ares de harmonia,

Geme ao deitar-se do sol.

Mas se preso na gaiola

Mão tirana o encadeia,

Inda assim ele gorjeia,

Para dar alívio à dor.

Assim, oh grande Torquato,

Neste cárcere horroroso

Gemer te viram saudoso

A Liberdade, e o Amor.

Fado! Fado do vate!... A Itália toda

As doçuras gostava de teus versos;

Gofredo ao céu da glória remontava

Sobre as sonoras asas de teu gênio;

E tu, oh Tasso, aqui nesta masmorra

Como um vil criminoso definhavas!

Fado do vate! rigoroso fado!

Mas Tasso ousou amar de um duque a filha!

Oh Ferrara! cem duques teus cingidos

De áureas c’roas, de púrpura cobertos,

Um só Tasso não valem.

Um vate é mais que um rei. Reis faz o povo,

E a seu grado os desfaz, como do mármore

Tira o escultor um Nume, e quando apraz-lhe

Em simples animal converte-o, ou quebra-o.

Mas tu, sagrado fogo d’harmonia,

Quem te acende nas almas dos poetas?

O mágico poder com que convertes

Aquiles num herói, Páris num fraco,

Acaso dos mortais herdaste, oh vate?

Ou foi prenda do céu a lira tua,

A lira, que imortais sons desferindo,

Vive no tempo, e impõe silêncio à inveja?

Muros desta prisão! muros, que outrora

Um tesouro encerrastes,

Vós, que insensíveis testemunhas fostes

Dos suspiros de Tasso,

Dizei, muros, se acaso vós pudestes

Tolher do engenho as asas?

Ou se o tirano a glória nodoou-lhe?

Vingou a Humanidade a afronta sua,

Como um astro no céu Tasso rutila,

E o nome do tirano negrejando,

Aumenta-lhe o fulgor, que o ilumina.

Mas oh da Providência altos arcanos!

Que mais sofra na vida, quem co’a morte

Nova vida imortal viver começa!

Assim homens ingratos,

Enquanto vivo o mérito premiam!

Ah! consola-te, oh Tasso,

Que o único não foste, que da sorte

Sorveu tragos amargos.

Quase é do vate estrela o infortúnio!

Como os mártires são, que só morrendo

A apoteose recebem.

Aquele a quem a Grécia ergueu altares,

Homero, mendigou de porta em porta!

Tu, oh Ravena, o fugitivo Dante

Viste iracundo praguejar seu fado.

Camões, rival de Tasso, o pão esmola

Ante os olhos de Lísia. E tu, oh Silva,

Da minha Pátria filho,

A fogueira subiste com pé firme,

Que a inocência teus passos vigorava;

E entre as chamas, por mãos ímpias acesas,

Teu último suspiro ao céu subiste.

Ante esse bruto povo,

Que outrora te aplaudira.

Tu Cláudio octogenário, na masmorra

Para a afronta evitar te deste a morte.

Lá de horrenda prisão correm ferrolhos,

A dura porta se abre,

Lá sai Dirceu saudoso, suspirando

Pela cara Marília,

Lá vai morrer proscrito

Nas inóspitas plagas Africanas.

Fado do vate! rigoroso fado!

Porém dos vates

Por que lamento

A triste sorte?

Pode o tormento,

Ou pode a morte,

Inda que seja

Dura, afrontosa,

Fazer que a história

Não perpetue

Sua memória?

Raivosa a inveja

Arme-se embora,

E os acometa.

Do vate a glória,

É qual planeta,

Que no céu mora,

No céu lampeja,

Para honra dos humanos,

E opróbrio dos tiranos.