XXV

By Luís Nicolau Fagundes Varela

Já de Belém as luzes bruxuleiam

Pálidas através dos nevoeiros,

Qual turbilhão de tênues vagalumes

Sobre as sarças escuras lampejando....

Um grito apenas, expansivo e forte

Pelos ares ressoa — o passo dobram;

Superam a fadiga. Estavam findas

As penas desse dia trabalhoso.

Chegam por fim. Das estalagens vastas

Os grosseiros portões rangem nos gonzos:

Gritam os amos; os serventes correm

De um lado e de outro; os viageiros entram

Nos largos palcos, insistentes estes

Pedindo de comer, — fracos aqueles

Suplicando um abrigo, um leito ao menos,

Chora a criança; o ancião tolhido

Implora brando lume a que se aqueça;

Acalentam as mães os filhos; bradam

Os condutores alijando os carros;

Ressoam na calçada as duras patas

Das mulas pacientes: — a desordem

Reina e a confusão por toda a parte.

Para tão grande número são poucas

As pousadas, e poucos os alvergues;

O que chegou primeiro, o mais esperto,

Ou traz mais cheio o cinto, ou prenhe a bolsa,

Tem o lugar melhor; ficam os outros

Na cozinha ou no alpendre; outros, apenas,

Acham mesquinha enxerga em que dormirem

No frio pátio ao lume das fogueiras.

Porém, José o pobre carpinteiro,

Porém, Maria a santa, a imaculada,

Só encontraram por abrigo — o teto

Do escura estrebaria, ou vil presepe!

Por leito — feixes de cevada e feno!

Por companheiros de hospedage — os brutos!

Nem um velho candil de frouxo lume,

Nem ligeiros gravetos acendidos

Entre grosseiras pedras clareavam

O miserável, negro pardieiro!

Em breve o sono amigo as gratas asas

Estendeu sobre os pobres viandantes.