XXV
Já de Belém as luzes bruxuleiam
Pálidas através dos nevoeiros,
Qual turbilhão de tênues vagalumes
Sobre as sarças escuras lampejando....
Um grito apenas, expansivo e forte
Pelos ares ressoa — o passo dobram;
Superam a fadiga. Estavam findas
As penas desse dia trabalhoso.
Chegam por fim. Das estalagens vastas
Os grosseiros portões rangem nos gonzos:
Gritam os amos; os serventes correm
De um lado e de outro; os viageiros entram
Nos largos palcos, insistentes estes
Pedindo de comer, — fracos aqueles
Suplicando um abrigo, um leito ao menos,
Chora a criança; o ancião tolhido
Implora brando lume a que se aqueça;
Acalentam as mães os filhos; bradam
Os condutores alijando os carros;
Ressoam na calçada as duras patas
Das mulas pacientes: — a desordem
Reina e a confusão por toda a parte.
Para tão grande número são poucas
As pousadas, e poucos os alvergues;
O que chegou primeiro, o mais esperto,
Ou traz mais cheio o cinto, ou prenhe a bolsa,
Tem o lugar melhor; ficam os outros
Na cozinha ou no alpendre; outros, apenas,
Acham mesquinha enxerga em que dormirem
No frio pátio ao lume das fogueiras.
Porém, José o pobre carpinteiro,
Porém, Maria a santa, a imaculada,
Só encontraram por abrigo — o teto
Do escura estrebaria, ou vil presepe!
Por leito — feixes de cevada e feno!
Por companheiros de hospedage — os brutos!
Nem um velho candil de frouxo lume,
Nem ligeiros gravetos acendidos
Entre grosseiras pedras clareavam
O miserável, negro pardieiro!
Em breve o sono amigo as gratas asas
Estendeu sobre os pobres viandantes.