XXVI
— Calou-se o narrador, ergueu os olhos
Para a celeste abóbada, crivada
De estrelas rutilantes, depois triste
Abaixou a cabeça suspirando.
Todo o auditório contemplava mudo
Aquela bela imagem do profeta;
Todo o auditório respirava a medo,
Temendo interromper-lhe os pensamentos.
Por fim continuou:
— Nas vastas terras
Que no centro da Ásia se dilatam,
Tendo ao Setentrião tribos ferozes,
Povos sem lei, sem crenças, sem governo,
E ao Meio-dia a Pérsia, a índia adusta;
Ao Oriente a China impenetrável,
Ao Ocidente a áspera Tartária,
Um poderoso império florescia,
Grande no meio de inimigas hordas,
Opulento entre reinos lacerados
Por discórdias e guerras, deslumbrava
Com seu fulgor os povos do Levante.
Nunca, segundo a tradição nos conta,
Mais altos torreões, mais ricos templos,
Mais vistosos eirados, levantaram
Braços humanos. Seus reais senhores
Tinham acumulado nas cidades
Esplêndidas, soberbas, os prodígios
Das artes, das ciências, dos trabalhos
Em que mil gerações se afadigaram.
Mas, desgraça! loucura! Os habitantes
De tão brilhante e opulento império
Não guardavam de Deus e da verdade
A mínima noção! Monstros horrendos,
Áureas, mas broncas, colossais estátuas,
A lua, o sol, as abusões falazes
Da louca fantasia, eram seus deuses!
Uma classe, contudo, ilustre classe,
Classe temida, professava, é certo,
De vedada ciência os exercícios;
Ela escrevia a lei, ela dispunha
Dos homens e das cousas, dominava
O rei e o povo, o exército e o comércio:
Era a classe dos Magos. O seu livro
Tinha por folhas os azuis espaços,
As estreitas por letras. Longas noites,
De enormes torreões sobro os eirados,
Olhos fitos no céu, acompanhavam
Dos claros astros os extensos giros.
Liam da natureza as maravilhas,
Os flagelos do tempo, a sina, o fado
Do mais rasteiro ser que a terra habita,
Na poeira dos mundos cintilantes
Que à noite argenta o Armamento escuro.
A pedido do rei, que feias lutas,
Iminentes perigos assombravam,
Reuniram-se os Magos: rubros fogos
Brilharam logo nos torrados todos
Dessas erguidas fábricas de pedra,
Glória dos grandes e terror do vulgo;
Rolos de espesso, de odoroso fumo
Por um momento espalham-se nos ares;
Estranhos cantos, harmonias vagas,
Como as de um sonho de alma enamorada
Passam nas asas dos noturnos ventos.
Amedrontado o povo, em vozes baixas
Repete então maravilhosos contos,
Fala de aparições de etéreos gênios
Habitantes dos astros, de colóquios
Com as sombras errantes, que das nuvens,
Sentadas descem sobre carros de ouro;
De espantosas visões, negros sigilos,
Revelações de pavorosos seres:
O segredo, porém, dessas alturas,
Os arcanos profundos que decifram
Os magos reunidos — ninguém sabe,
Ninguém tenta saber! Desventurado
Aquele que, de longe, procurasse
Perscrutar os mistérios dessas horas!
À meia noite, o tempo do preceito,
Eram findos os mágicos trabalhos,
Eram sabidos os futuros casos;
Guardam-se os tenebrosos instrumentos,
As lâmpadas apagam-se, os braseiros,
Onde a mirra e o incenso há pouco ardiam,
Deixam de fumegar; os Magos descem,
Mudos, severos, arrastando os mantos
Pelas escadarias de granito.
Não se fecha, contudo, a grande porta,
Ficam alguns serventes, que três sábios,
Doutos conhecedores das estrelas,
Aguardam a manhã: o mais provecto
Chama-se Baltazar, nobre, opulento,
Governa a terra onde abundantes brilham
As auríferas minas: o segundo
Domina a região das tamareiras
E das árvores altas que destilam
A cânfora saudável; o seu rosto
Tem do ébano a cor lustrosa e negra,
É Melquior o seu nome: o derradeiro,
Gaspar, vive entre as tribos do deserto,
D’onde a suave mirra, o brando incenso,
O grato beijoim descem, se espalham
Pelos grandes mercados do Oriente.