XXVI

By Luís Nicolau Fagundes Varela

— Calou-se o narrador, ergueu os olhos

Para a celeste abóbada, crivada

De estrelas rutilantes, depois triste

Abaixou a cabeça suspirando.

Todo o auditório contemplava mudo

Aquela bela imagem do profeta;

Todo o auditório respirava a medo,

Temendo interromper-lhe os pensamentos.

Por fim continuou:

— Nas vastas terras

Que no centro da Ásia se dilatam,

Tendo ao Setentrião tribos ferozes,

Povos sem lei, sem crenças, sem governo,

E ao Meio-dia a Pérsia, a índia adusta;

Ao Oriente a China impenetrável,

Ao Ocidente a áspera Tartária,

Um poderoso império florescia,

Grande no meio de inimigas hordas,

Opulento entre reinos lacerados

Por discórdias e guerras, deslumbrava

Com seu fulgor os povos do Levante.

Nunca, segundo a tradição nos conta,

Mais altos torreões, mais ricos templos,

Mais vistosos eirados, levantaram

Braços humanos. Seus reais senhores

Tinham acumulado nas cidades

Esplêndidas, soberbas, os prodígios

Das artes, das ciências, dos trabalhos

Em que mil gerações se afadigaram.

Mas, desgraça! loucura! Os habitantes

De tão brilhante e opulento império

Não guardavam de Deus e da verdade

A mínima noção! Monstros horrendos,

Áureas, mas broncas, colossais estátuas,

A lua, o sol, as abusões falazes

Da louca fantasia, eram seus deuses!

Uma classe, contudo, ilustre classe,

Classe temida, professava, é certo,

De vedada ciência os exercícios;

Ela escrevia a lei, ela dispunha

Dos homens e das cousas, dominava

O rei e o povo, o exército e o comércio:

Era a classe dos Magos. O seu livro

Tinha por folhas os azuis espaços,

As estreitas por letras. Longas noites,

De enormes torreões sobro os eirados,

Olhos fitos no céu, acompanhavam

Dos claros astros os extensos giros.

Liam da natureza as maravilhas,

Os flagelos do tempo, a sina, o fado

Do mais rasteiro ser que a terra habita,

Na poeira dos mundos cintilantes

Que à noite argenta o Armamento escuro.

A pedido do rei, que feias lutas,

Iminentes perigos assombravam,

Reuniram-se os Magos: rubros fogos

Brilharam logo nos torrados todos

Dessas erguidas fábricas de pedra,

Glória dos grandes e terror do vulgo;

Rolos de espesso, de odoroso fumo

Por um momento espalham-se nos ares;

Estranhos cantos, harmonias vagas,

Como as de um sonho de alma enamorada

Passam nas asas dos noturnos ventos.

Amedrontado o povo, em vozes baixas

Repete então maravilhosos contos,

Fala de aparições de etéreos gênios

Habitantes dos astros, de colóquios

Com as sombras errantes, que das nuvens,

Sentadas descem sobre carros de ouro;

De espantosas visões, negros sigilos,

Revelações de pavorosos seres:

O segredo, porém, dessas alturas,

Os arcanos profundos que decifram

Os magos reunidos — ninguém sabe,

Ninguém tenta saber! Desventurado

Aquele que, de longe, procurasse

Perscrutar os mistérios dessas horas!

À meia noite, o tempo do preceito,

Eram findos os mágicos trabalhos,

Eram sabidos os futuros casos;

Guardam-se os tenebrosos instrumentos,

As lâmpadas apagam-se, os braseiros,

Onde a mirra e o incenso há pouco ardiam,

Deixam de fumegar; os Magos descem,

Mudos, severos, arrastando os mantos

Pelas escadarias de granito.

Não se fecha, contudo, a grande porta,

Ficam alguns serventes, que três sábios,

Doutos conhecedores das estrelas,

Aguardam a manhã: o mais provecto

Chama-se Baltazar, nobre, opulento,

Governa a terra onde abundantes brilham

As auríferas minas: o segundo

Domina a região das tamareiras

E das árvores altas que destilam

A cânfora saudável; o seu rosto

Tem do ébano a cor lustrosa e negra,

É Melquior o seu nome: o derradeiro,

Gaspar, vive entre as tribos do deserto,

D’onde a suave mirra, o brando incenso,

O grato beijoim descem, se espalham

Pelos grandes mercados do Oriente.