XXVII

By Luís Nicolau Fagundes Varela

Retirados os mais, os três sentados

No derradeiro andar da imensa torre,

Despertos, porem mudos, e absortos,

Buscam as horas iludir da noite,

Cada qual se entregando aos pensamentos

Ledos ou tristes, graves ou ligeiros,

Que o silêncio, o lugar, o acaso, o tempo,

Soem chamar à inteligência humana.

Este, talvez, recorda-se da esposa,

Ou da amante, dos filhos, dos amigos,

Da lareira querida que deixara;

Aquele de negócios complicados.

Ou dos pátrios destinos; aqueloutro

Nesse futuro que entrevira há pouco

Na face das estrelas... Mas, oh! numes!

Repentino clarão percorre o espaço!

Jorro de luz rebenta do infinito,

Seguido de um horríssono estampido!

O enorme torreão todo estremece.

Depois um coro de celestes vozes,

De instrumentos divinos, docemente

Nas nuvens faz-se ouvir, e aos olhos turvos

Dos Magos assustados aparece

De um querubim a esplêndida figura:

Mais alvas, mais brilhantes do que a neve

Incólume dos Andes, refletindo

A luz do sol nascente, eram as vestes

Que as formas lhe envolviam; mais festivas

Do que as faixas do íris, quando abraça

Depois da tempestade o céu e a terra,

Eram as longas asas. Da cabeça,

Prodígio de beleza, uma torrente

De fúlgidas madeixas desprendia-se,

Vinha tocar-lhe os pés; a eternidade

Terrível, mas sublime; a glória excelsa,

Mas assombrosa, das celestes cortes,

Dominavam-lhe os gestos e a postura.

— Não tenhais medo, murmurou, erguei-vos,

Ajuntai as mais grátulas ofertas

E parti, caminhai: a mão do Eterno

Vai desvendar-vos os terrestres olhos.

Ide a Belém, o Salvador do mundo

Entre os homens está. — Disse, e agitando

As asas vigorosas, afastou-se,

Deixando os Magos trêmulos, atônitos.