XXVII
Retirados os mais, os três sentados
No derradeiro andar da imensa torre,
Despertos, porem mudos, e absortos,
Buscam as horas iludir da noite,
Cada qual se entregando aos pensamentos
Ledos ou tristes, graves ou ligeiros,
Que o silêncio, o lugar, o acaso, o tempo,
Soem chamar à inteligência humana.
Este, talvez, recorda-se da esposa,
Ou da amante, dos filhos, dos amigos,
Da lareira querida que deixara;
Aquele de negócios complicados.
Ou dos pátrios destinos; aqueloutro
Nesse futuro que entrevira há pouco
Na face das estrelas... Mas, oh! numes!
Repentino clarão percorre o espaço!
Jorro de luz rebenta do infinito,
Seguido de um horríssono estampido!
O enorme torreão todo estremece.
Depois um coro de celestes vozes,
De instrumentos divinos, docemente
Nas nuvens faz-se ouvir, e aos olhos turvos
Dos Magos assustados aparece
De um querubim a esplêndida figura:
Mais alvas, mais brilhantes do que a neve
Incólume dos Andes, refletindo
A luz do sol nascente, eram as vestes
Que as formas lhe envolviam; mais festivas
Do que as faixas do íris, quando abraça
Depois da tempestade o céu e a terra,
Eram as longas asas. Da cabeça,
Prodígio de beleza, uma torrente
De fúlgidas madeixas desprendia-se,
Vinha tocar-lhe os pés; a eternidade
Terrível, mas sublime; a glória excelsa,
Mas assombrosa, das celestes cortes,
Dominavam-lhe os gestos e a postura.
— Não tenhais medo, murmurou, erguei-vos,
Ajuntai as mais grátulas ofertas
E parti, caminhai: a mão do Eterno
Vai desvendar-vos os terrestres olhos.
Ide a Belém, o Salvador do mundo
Entre os homens está. — Disse, e agitando
As asas vigorosas, afastou-se,
Deixando os Magos trêmulos, atônitos.