XXVIII

By Gonçalves de Magalhães

Do céu as estrelas

Acaso no brilho

São todas iguais?

São umas mais belas,

E outras parecem

Funéreos fanais.

Assim são os fados

Dos tristes mortais.

Cada qual tem sua sorte;

Um foi para a dor gerado,

E outro pela ventura

Ao nascer foi embalado.

Quanto mais penso, mais creio

Neste mistério profundo;

E a mim mesmo então pergunto:

Para que vim eu ao mundo?

Como resposta esperando,

Escuto silencioso;

No coração, que palpita,

Murmura um som lutuoso.

Soa essa voz em meu peito

Como em caverna profunda,

Como um suspiro exalado

Pela vaga gemebunda.

Para a dor, me diz, nasceste;

Para a dor, para o tormento;

Teus males só terão termo

Co’o teu último momento.

Sofrer, tal é meu fado! — Eu me resigno.

E que hei de fazer? Curta é a vida...

E quem me tolhe qu’eu de todo a encurte?

Não serei livre de lançar por terra

Um fardo que me acurva, um fardo inútil?

É a vida para uns néctar suave,

Tóxico é para mim;... devo tragá-lo?

Acaso Deus me disse

A ti toca sofrer por mil que gozam.

Mas eu blasfemo, oh céus! Que voz me grita:

“Mortal, olha o que fazes! Contra a vida

Não ouses atentar. Quem vida deu-te

Só quando lhe aprouver tirar-ta pode.”

Oh meu Deus! compaixão; minha alma humilde

Graça implora da sua insana idéia.

Rir, ou chorar, eis só o que o homem sabe;

Se não canta, blasfema!

A sorte choremos,

Que avessa nos é;

Mas não blasfememos,

Vivamos co’a Fé.

Qual a esponja de líquido embebida,

De perpétua, letal melancolia

Pejado tenho o peito;

Minha alma amortecida,

E como que em seu túmulo encerrada,

Só pela dor à vida é revocada.

Oh minha alma, tu és como a lanterna

Do cemitério,

Que ante o altar, sobre um esquife solta

Palor funéreo.

A sorte choremos,

Que avessa nos é;

Mas não blasfememos,

Vivamos co’a Fé.

Oh prazer! Oh doçura da existência!

Meta tão desejada

De todos os mortais, para quem inda

Brilha no céu a estrela da esperança.

Oh benigno sol, que a vida aqueces,

Para mim te eclipsaste!

E se às vezes fosfórico lampejas,

Quando eu, afeito à dor, não te desejo,

É para exacerbar meu sofrimento.

Ah! nem me afaga da esperança o riso,

Nem me consola amor; tudo me foge.

A sorte choremos,

Que avessa nos é;

Mas não blasfememos,

Vivamos co’a Fé.