XXXII

By Gonçalves de Magalhães

Não era noite, nem o sol brilhava;

Mas do céu as estrelas rutilantes

Com branda luz os ares perfumavam;

E nas águas azuis, dormentes águas,

Que Veneza circulam com cem braços,

Os celestes fanais, e a casta lua

Suas belas imagens balançavam.

Outro céu esse lago parecia.

Eram dous céus! Veneza em meio estava,

Como um astro que parca luz emana.

O leão de São Marcos inda eu via;

A torre esbelta, o gótico palácio,

E a ponte dos suspiros.

Mas tudo, tudo

Deixar devia,

Antes que o dia

Amanhecesse,

E desfizesse

Quadro tão belo.

A mão do escravo

Obediente

Maquinalmente

Já martelava

O fatal bronze;

Pancadas onze

O ar vibrava.

Triste e choroso

Teus versos lia,

E de saudade

Me enternecia.

Teus versos lendo,

Fantasiava

Que te escutava;

E que assentado

Inda a meu lado

Te estava vendo.

Já para responder-te preparado

A amizade invocara,

E cravados no céu os olhos tinha.

Mas a hora fatal gelou-me o arroubo!

Alerta o gondoleiro me esperava;

Partir... deixar Veneza era forçoso.

Co’os teus versos nas mãos, tu em minha alma,

Na gôndola pus pé; saudei Veneza;

E co’os olhos em lágrimas nadando:

Adeus, Veneza, eu disse,

Adeus, adeus, marítima cidade;

Decaída Rainha do Adriático.

Eu suspirava ainda;

A gôndola do cais se ia afastando,

E do grande canal sulcando as águas,

Quando vozes ouvi: era o barqueiro,

Que ao compasso do remo recitava,

Com monótona voz, porém saudosa,

Do vate de Sorrento os doces carmes.

Tudo então repousava;

Veneza ao longe iluminada eu via,

Como um céu estrelado.

O esquife brandamente deslizava,

As sonolentas águas despertando,

Qual negro mergulhão de argênteo rostro,

Ou qual cisne de luto revestido.

Por que tão curta foi noite tão bela?

Ah! quem nunca deixou pátrias devesas,

Quem de um amigo não chorou a ausência,

Nem de uma amante a perda,

Gozar não pode em solitária noite

Esta doce impressão, que alma sufoca.

Tomei terra em Fusina;

Arqua deixei, onde habitou Petrarca;

Ábano, que por ser de Lívio pátria,

Ainda hoje se ufana;

E na crastina aurora saudei Pádua,

Ao som da melodia encantadora,

Que ao sol nascente o rouxinol tributa.

Pela segunda vez vi seus palácios,

Seu templo semi-árabe, que outrora

De Antônio repetiu sacros acentos.

Visitei de Vicenza os monumentos.

Em Montebelo recordei prodígios

Do armipotente Lannes.

Eis-me em Verona alfim, oh caro amigo!

Já vi seus mausoléos, e o anfiteatro,

Que Roma, e o Coliseu me está lembrando;

O Coliseu, que juntos vezes tantas

Ao triste albor da lua visitamos!

Tudo a memória,

Doce tormento,

Neste momento,

Me está narrando,

Sem omissão;

E a cada folha

Da nossa história,

Que vai passando,

Pungente espinho

Me vai varando

O coração.

Sempre a teu lado

Vivi contente;

A ti ligado,

Uma vontade

Só nos unia;

Vera amizade

Nos apertava.

Se triste estava,

Tu me alegravas;

Em ti vivia,

Contigo ria.

Se me dizias:

Sou teu amigo,

Eu como um eco

Te repetia.

Era um exemplo

Nossa união.

Mas quis a sorte,

Sempre inimiga,

Atormentar-nos,

E separar-nos

Por algum tempo;

Desde esse instante

A dor pintou-se

No meu semblante;

Mas só a morte

Dará um corte

Ao laço santo,

Que nos prendeu;

Se poder tanto

O justo céu

Lhe concedeu.

Vai, meu suspiro,

Vai ver o amigo,

Que te deseja

No seu retiro.

À Roma adeja,

Deixa-a, e te inclina

À Palestrina;

Chega ao abrigo

Onde ele pousa;

Aí repousa,

Suspiro meu.