XXXIX

By Gonçalves de Magalhães

Eis aqui o lugar, onde eclipsou-se

O Meteoro fatal às régias frontes!

E nessa hora em que a glória se obumbrava,

Além o sol em trevas se envolvia!

Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!

Dous astros ao ocaso caminhavam;

Tocado ao seu zênite haviam ambos;

Ambos iguais no brilho, ambos na queda

Tão grandes como em horas de triunfo!

Waterloo!... Waterloo!... Lição sublime

Este nome revela à Humanidade!

Um Oceano de pó, de fogo, e fumo

Aqui varreu o exército invencível,

Como a explosão outrora do Vesúvio

Até seus tetos inundou Pompéia.

O pastor que apascenta seu rebanho;

O corvo que sanguíneo pasto busca,

Sobre o leão de granito esvoaçando;

O eco da floresta, e o peregrino

Que indagador visita estes lugares:

Waterloo!... Waterloo!... dizendo, passam.

Aqui morreram de Marengo os bravos!

Entretanto esse Herói de mil batalhas,

Que o destino dos Reis nas mãos continha;

Esse Herói, que co’a ponta de seu gládio

No mapa das Nações traçava as raias,

Entre seus Marechais ordens ditava!

O hálito inflamado de seu peito

Sufocava as falanges inimigas,

E a coragem nas suas acendia.

Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,

Medindo o campo com seus olhos de águia!

O infernal retintim do embate de armas,

Os trovões dos canhões que ribombavam,

O sibilo das balas que gemiam,

O horror, a confusão, gritos, suspiros,

Eram como uma orquestra a seus ouvidos!

Nada o turbava! — Abóbadas de balas,

Pelo inimigo aos centos disparadas,

A seus pés se curvavam respeitosas,

Quais submissos leões; e nem ousando

Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.

Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!

Foi destino, ou traição? — A águia sublime

Que devassava o céu com vôo altivo

Desde as margens do Sena até ao Nilo,

Assombrando as Nações co’as largas asas,

Por que se nivelou aqui co’os homens?

Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória

O hino da vitória ouviu três vezes;

E três vezes bradou: — É cedo ainda!

A espada lhe gemia na bainha,

E inquieto relinchava o audaz ginete,

Que soía escutar o horror da guerra,

E o fumo respirar de mil bombardas.

Na pugna os esquadrões se encarniçavam;

Roncavam pelos ares os pelouros;

Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;

Encruzadas espadas, e as baionetas,

E as lanças faiscavam retinindo.

Ele só impassível como a rocha,

Ou de ferro fundido estátua equestre,

Que invisível poder mágico anima,

Via seus batalhões cair feridos,

Como muros de bronze, por cem raios;

E no céu seu destino decifrava.

Pela última vez co’ a espada em punho

Rutilante na pugna se arremessa;

Seu braço é tempestade, a espada é raio.

Mas invencível mão lhe toca o peito!

E’ a mão do Senhor! barreira ingente

Basta, guerreiro! Tua glória é minha;

Tua força em mim stá. Tens completado

Tua augusta missão. — És homem; — pára.

Eram poucos, é certo; mas que importa?

Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,

Surdo aos trovões da guerra que bradavam:

Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;

O teu Imperador aqui te aguarda.

Ah! não deixes teus bravos companheiros

Contra a enchente lutar, que mal vencida

Uma após outra em turbilhões se eleva,

Como vagas do Oceano encapelado,

Que furibundas se alçam, lutam, batem

Contra o penedo, e como em pó recuam,

E de novo no pleito se arremessam.

Eram poucos, é certo; e contra os poucos

Armadas as Nações aqui pugnavam!

Mas esses poucos vencedores foram

Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.

Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos

Viram passar as águias vencedoras!

E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates

Embalde à sua marcha se opuseram.

Eram os poucos, que jamais vencidos

Os dias seus contavam por batalhas,

E de cãs se cobriram nos combates;

O sol do Egito ardente assoberbaram,

A peste em Jafa, a sede nos desertos,

A fome, e os gelos dos Moscóvios campos.

Poucos que se não rendem; — mas que morrem!

Oh! que para vencer bastantes eram!

A terra em vão contra eles pleiteara,

Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.

Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!

Vergonha eterna à geração que insulta

O Leão que magnânimo se entrega.

Ei-lo sentado em cima do rochedo,

Ouvindo o eco fúnebre das ondas,

Que murmuram seu cântico de morte.

Braços cruzados sobre o largo peito,

Qual náufrago escapado da tormenta,

Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;

Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.

Que grande idéia o ocupa, e turbilhona

Naquela alma tão grande como o mundo?

Ele vê esses Reis, que levantara

Da linha de seus bravos, o traírem.

Ao longe mil pigmeus rivais divisa,

Que mutilam sua obra gigantesca;

Como do Macedônio outrora o Império

Entre si repartiram vis escravos.

Então um riso de ira, e de despeito

Lhe salpica o semblante de piedade.

O grito ainda inocente de seu filho

Soa em seu coração, e de seus olhos

A lágrima primeira se desliza.

E de tantas coroas que ajuntara

Para dotar seu filho, só lhe resta

Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!

Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,

A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.

Mas firme era sua alma como o mármore,

Onde o raio batia, e recuava!

Jamais, jamais mortal subiu tão alto!

Ele foi o primeiro sobre a terra.

Só, ele brilha sobranceiro a tudo,

Como sobre a coluna de Vendôme

Sua estátua de bronze ao céu se eleva.

Acima dele Deus, — Deus tão-somente!

Da Liberdade ele era o mensageiro.

Sua espada, cometa dos tiranos,

Foi o sol, que guiou a Humanidade.

Nós um bem lhe devemos, que gozamos;

E a geração futura agradecida:

NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.