XXXVII

By Gonçalves de Magalhães

Tudo está profanado!

As vestes da virtude o vício adornam;

Da lisonja nas aras arde o incenso

Que só devera embalsamar o templo!

Murchas flores, que a fronte ao vício ornaram,

Atiram-se em despeito ao altar do Eterno.

Tudo está profanado!

Levanta a estupidez a hirsuta coma

Coberta de poeira,

E a sacode no rosto da Ciência,

Ou no alcáçar da lei se assenta ufana;

A Moral a seus pés serve de sólio,

De cúpula o capricho.

Tudo está profanado!

A cívica coroa

Dá-se à ambição, que sobe intumescida

Como a onda do mar, e tudo alaga.

Exauriram-se os nomes das virtudes,

E um só não há que ao crime se não desse.

Os lugares são prêmios da baixeza,

Da feia adulação, da vil intriga!

O hino cantam da vitória; e a Pátria

Geme aflita co’o peso da ignorância

Dos homens, cuja estrela é o egoísmo;

E até a lira, para mor opróbrio,

Vendidos sons só verte!

Tudo está profanado!

Como posso louvar-te, ilustre Veiga,

Santuário da honra foragida?

Que nome te darei? que flor? que incenso?

Como o bronze que soa em torre excelsa,

Chamando a Deus os homens,

Tu bradaste, pregaste o amor da Pátria;

A teus brados os homens surdos foram,

E tu enrouqueceste.

Apóstolo da ordem,

Caíste, enfim caíste! — Mas com glória!

Caíste, mas sem nódoa! Sim, caíste!

Mas Sócrates também sofreu a morte!

Qual se vê nas cidades arrasadas,

O templo solitário, esparsos bustos,

Rotas colunas, capitéis dispersos,

Combros de terra, montes de ruínas;

E no meio, inda envolta de poeira,

Uma estátua, que o tempo respeitara,

E que os olhos atrai do peregrino;

Assim te eu vejo em pé! e assim um dia

A geração futura, pesquisando

No meio das relíquias desta idade

Alguma cousa inteira, pura e bela,

Sacudirá o pó, que hoje te lançam,

E dirá: Eis aqui um Homem probo.

Mas que digo? — Ainda vives!

Envenena-se a flor, se a serpe a morde,

E a virtude definha, conculcada!

Mas tu amas a Pátria, como eu amo;

Amas com amor puro,

Sem mescla de interesse, como se ama

Uma mãe terna, que não tem tesouros,

Mas só lágrimas tem para legar-nos.

Ah! praza ao céu que a estrada em que brilhaste,

Seja aquela em que morras.

E assim foi.