XXXVIII

By Gonçalves de Magalhães

É qual estreito vaso o peito humano,

Que trasborda, ou se quebra, se fermenta

O veneno que encerra.

De gota em gota o fel da desventura

N’alma a tristeza vai-nos embebendo,

Té que o corpo converte-se em masmorra,

De que a alma fugir busca.

Oh! quem vê uma flor que em prado brilha,

Parecendo exalar vida, e doçura,

E rir-se em cada pétala viçosa,

Acaso dizer pode

Se ela foi pela serpe inficionada?

Se em vez de vida, a morte só lhe lavra

O delicado estame?

Quem pode ver o formigueiro oculto,

Que o humano coração rói, e lacera?

Se eu sofro, ou não, só eu, só Deus o sabe.

Mas feliz quem nos seios de sua alma

Acha uma grande idéia que o consola,

Como uma taça de suave néctar,

Que lhe acalma as entranhas sequiosas.

Quem se resigna à dor não sofre tanto.

Que veneno aí há que um bem não faça?

Ou que remédio que não cause um dano,

Segundo o caso, e leve circunstância,

Que à vista perspicaz escapa às vezes?

Não, não és tu, Filosofia humana,

Quem me robora o peito!

Sábias lições de sofrimento ditas;

Mas o valor acaso dar tu podes?

Quantas vezes o mal frustra a ciência!

Pura fonte conheço, inexaurível,

Onde sempre o infeliz adoça as dores.

Livro sagrado,

Vem consolar-me,

Vem saciar-me

Na minha dor.

Meu peito ansiado

De ti carece,

Sem ti falece

O meu vigor.

A ti recorro

Triste e sedento,

Que este tormento

Me faz gemer.

Dá-me socorro

No mal extremo,

Vem, senão temo

À dor ceder.

Cada palavra,

Que me vás dando,

É qual um brando,

Suave mel.

Já em mim lavra

A paz do empíreo;

Do meu martírio

Se adoça o fel.