XXXVIII
Mas o tempo voraz que não descansa,
Que embala os berços, que os sepulcros abre
Em um relance d’olhos, implacável
Seu giro continua. Aconselhados
Por celeste visão, voltam os Magos
Às regiões natais, menosprezando
O astuto aviso e o pérfido conselho
Do tenebroso Herodes, que esbraveja
Vendo-se deste modo postergado.
Para o Deus criador, justo, infinito,
Não existe passado nem futuro:
Tudo é — hoje, hoje sempre. — A eternidade
Forma o dia divino, mas o dia
Que não teve alvorada e não tem noite.
Era chegado o Salvador, — o Verbo,
A fecunda e suprema Inteligência,
A verdadeira luz: — de novo o mundo
Ia sair das trevas que o cercavam.
O santo mensageiro se apresenta
Novamente a José: — Toma a criança,
Ampara a virgem mãe, busca o caminho
Do hospitaleiro Egito; os dias negros
Do malfazejo Herodes são contados.
Quando a terra cobrir seus frios ossos.
Voltarás ao país de teus maiores;
Parte. — E dizendo assim, volta de novo
Aos paços do Senhor, d’onde baixara.