Ao ar livre

By João da Cruz e Sousa

Tu trazes agora o peito

Como essas urnas sagradas,

Repleto de gargalhadas,

Sonoro, bom, satisfeito.

Por dentro cantam assombros

E causas esplendorosas

Como latadas de rosas

Dos muros entre os escombros.

Quando o ideal nos alaga,

Embora as lutas do mundo,

Levanta-se um sol fecundo

Do peito em cada uma chaga.

Voltou-se a seiva de outrora,

De outro, mais forte e destro,

Iluminado maestro,

Das harmonias da aurora.

Fulgurem por isso as musas,

As belas musas, por isso...

Voltou-te o passado viço,

Foram-se as mágoas, confusas.

Agora, quando eu dirijo

Meus passos, à tua porta,

Sinto-te um bem que conforta,

Vejo-te alegre e mais rijo.

Porque afinal pela vida

Nem tudo se desmorona

Quando se vaga na zona

Da mocidade florida.

Gostas de ver pelos ramos

Das verdes árvores novas,

A chocalhar umas trovas,

Coleiros e gaturamos.

Já podes bem comer frutas,

Os teus simpáticos jambos,

E ouvir alguns ditirambos

Da natureza nas grutas.

Podes olhar as esferas,

Com ar direito e seguro,

De frente para o futuro,

De lado para as quimeras.

Não tenhas cofres avaros

De santos — na luz te afoga,

E a alma arremessa e joga

Por esses páramos claros.

Reúne os sonhos dispersos

Como andorinhas vivaces

E o colorido das faces

Ao coberto dos versos.

Como uns lábaros vermelhos,

Contente como os lilases,

As crenças dos bons rapazes

Tem prismas como os espelhos.